domingo, 28 de setembro de 2014

Quem Diria?!

Encontro-me diante de um quadro de traços simples que me enrola nas suas ondas desenhadas a carvão e me leva ao sabor da maré da memória vinte milhas atrás.
Estava um maravilhoso dia de verão. Éramos ainda duas meninas, primas mas parecidas como irmãs e sempre prontas para a diversão.
Trocara temporariamente o barulho louco da cidade grande pela melodia harmoniosa desta pequena cidade. (Quem diria que um dia a troca seria permanente?!)
Saímos para andar de barco. Era o primeiro passeio de barco da minha vida!
Guiada pela emoção daquela estreia e pela mão cúmplice que me puxava para a frente, sentei-me na proa, pés borda fora, cabelos ao vento, enquanto o motor ganhava cada vez mais força numa provocação controlada de quem nos queria intimidar.
A adrenalina que me invadia emparelhava com as hormonas da idade ao som da música intensa que soava no rádio. (Quem diria que hoje ainda me lembraria dela?)
Recordo-me do gozo que nos dava sermos puxadas num “tubarão” de borracha em que nos encavalitávamos com esforço para sermos facilmente deitadas ao mar logo em seguida.
Mar que vejo da janela e me traz de volta ao desenho de infância esquecido numa capa durante anos e reencontrado pela força do destino. Desenho em que as minhas mãos fizeram o favor de conservar a imagem de mim mesma na proa do barco que puxa o “tubarão”, ao som das notas de música que saem do rádio. Desenho do qual não consta aquele que tenho agora ao meu lado, porque também não consta da memória que, neste ponto, me falhou redondamente mas que um dia reencontrei, como que por magia, trazido pela maré da vida. Por ele, ancorei nesta pequena cidade para sempre.
Quem diria?!
Sofia Cardoso
27 de maio de 2012

A palavra da minha vida: IR

Explorar,
Encarar,
Avançar,
Revelar,
Visitar,
Sonhar,
Testar,
Viajar,
Ousar,
Voar.

Conseguir,
Descobrir,
Perseguir,
Exprimir,
Emergir,
Decidir,
Existir,
Sentir,
Sorrir,
Sair.

Conhecer,
Aprender,
Escolher,
Escrever,
Crescer,
Correr,
Sorver,
Ler,
Ser…
…VIVER!

Sofia Cardoso

sábado, 27 de setembro de 2014

A Direito

As horas da tarde atropelavam-se, atropelavam-me. Começava agora a sentir aquele frio na barriga de quem conduz o coração em excesso de velocidade e, por isso, anseia, temendo, qualquer coisa… (A devida multa por incumprimento?!)
Estava a ser perseguida pelo cair da noite que me encostava à berma do tempo para estudar. Páginas atrás de páginas que me faziam sinais de luzes com a pretensão de me manter acordada mas, ao invés, me turvavam os olhos já esgotados de letras miúdas.
Era só mais um exame. Esperava-me na manhã seguinte como tantos outros cuja conta perdi nas paragens da vida e, ainda assim, sempre a mesma sensação opressora de que não dei prioridade aos livros que vinham pela direita do lazer...
Sofria muito mais a pressão de ver a corrida terminar do que a pressão da falta de combustível do saber porque este sempre foi pingando e nunca me deixou ficar a pé.
Nunca, pois, que estou de novo no derradeiro ano, o décimo sétimo de uma corrente de ciclos que terminam num cadeado sem chave.
Espera, algo me apita ao longe… Terei sido desclassificada? Fiz algo de errado ou estarei a chegar já à meta?
Não! Despistei-me na estrada onírica do meu cérebro e embati violentamente contra o muro da realidade! Um apitar estridente desperta-me alertando-me para os muitos quilómetros percorridos desde que perdi a chave da ignição do carro do Direito.
Sem traumatismo e até de certo modo aliviada, dou-me conta de que saí há muito do circuito fechado dos estudos e afinal conduzo já na estrada de quem segue para o emprego mas as curvas do mapa levam-me a direito por linhas tortas.
Nas bancadas da assistência, esperam-me hoje dezenas de crianças e não dezenas de leis, como ontem.
Fiz um bom tempo na corrida ao diploma. Contudo, prefiro não continuar a correr, sobretudo contra o tempo e gozar antes da paisagem lá fora.
De resto, a vida é muito mais do que um circuito cinzento, onde todos os riscos estão mais ou menos calculados ou os perigos sinalizados.
Precisei e preciso de arriscar, sair da linha, sem que isso implique pisar o traço contínuo; ousar um horizonte que me atraia mais, mesmo que não o consiga vislumbrar...


...Ainda...

Sofia Cardoso
06 de maio de 2012

domingo, 21 de setembro de 2014

Vestir a Camisola


Adorava ser o Ronaldo das palavras, o Mourinho da pontuação ou até, quem sabe, o Eusébio da inspiração…
Atirar as sílabas para o ar e apanhá-las com a cabeça, todas juntas em forma de palavra desejada…
Orientar o espírito na base da alta motivação, não aceitando menos do que o escrito perfeito como resultado…
Concretizar os objectivos com uma espectacularidade digna de levantar os leitores da cadeira, levando-os ao rubro…
Tenho feito estágios por conta própria ao longo da vida mas sempre fora de campo e sem apoiantes a assistir.
Subitamente, vi-me num balneário a espreitar outros mais experientes, a ouvir conselhos e achei que talvez pudesse chegar ao banco.
Todavia, não queria ficar no banco a vida toda. Gostava de dar o litro, de vestir a camisola, só não sei de que cor e muito menos sei se há quem reconheça o meu valor e me ponha de avançada.
Até sabia dizer já a quem dedicar o primeiro golo, só não levantaria a camisola… Mas inventaria uma gracinha qualquer para os festejos imediatos, sem problema.
Qual será o segredo do sucesso? A dedicação, o treino intensivo, a vontade de vencer, creio…
Uma coisa é certa, há que fintar os adversários, que é como quem diz, as dúvidas, os medos, a ansiedade… E correr, correr muito atrás das palavras, apanhá-las no ar, chutá-las na direcção certa e esperar que façam o tão esperado golo.
Sei que tenho um ou outro apoiante nas bancadas e agradeço-lhes de coração cada aplauso mas sonho com a verdadeira onda…
Não faço ideia como e porquê hoje me deu para aqui e espero não levar nenhum cartão vermelho pela ousadia mas tenho quase a certeza que nenhum dos visados me julgaria fora de jogo pela ânsia de tentar. Além disso, já que não há árbitro a controlar, também não há jogos a arriscar.

Sofia Cardoso
23 de fevereiro de 2011