domingo, 14 de dezembro de 2014

Pairando...

De repente, abres os olhos e dás contigo sendo envolvida numa gigante bola de sabão que lentamente se fecha mantendo-te lá dentro, aprisionada numa realidade tão frágil quanto desconhecida.
E vais sendo levada, vais subindo, deixando a terra firme cada vez mais lá em baixo… Sobes solta mas a sensação não é de liberdade, é de medo, de vulnerabilidade.
Não te podes mover porque corres o risco de a rebentar. Não podes fugir porque se a rebentas não sabes onde vais cair… E assim, sem alternativa, te deixas ir…
À volta, cada vez mais pequeninas e impotentes, ficam as pessoas que incrédulas te veem e te querem ajudar, porém, sem ter como o fazer. Sabendo-te perdida pelo ar, prosseguem a sua vida, seja porque de nada te podem valer, seja porque nem sequer te estão a ver.
E tu, cada vez mais claustrofóbica, desamparada, sem rede, lá vais, ao sabor do vento, angustiada pelo tormento de que não tens como te livrar, sem mais armas para além da tua força de acreditar que acabarás por te salvar.
A bolha não pode estoirar contigo no ar mas terá forçosamente que explodir para te deixar sair…
Não há outra hipótese senão esperar, quieta, crente, positiva, ainda que já dormente, pelo amainar do vento que lentamente te restitua à segurança da terra firme, da certeza bem presente de que à normalidade vais regressar, lentamente.
Até lá, pairas como e onde podes, fechas os olhos quando a vista te corta a respiração, choras quando te sentes sozinha, sempre sem desviar do solo a tua atenção.
Porque é para lá que vais regressar, porque é lá que vais recomeçar e porque até fechada numa redoma de sabão, vivendo momentos sem descrição, consegues sentir que para tudo há solução.     
Porque há! E tal como subitamente és aprisionada e levada, subitamente és libertada e a bola delicadamente rebentada.
A mesma bola de sabão em que perdida te viste, em cuja transparência exposta te sentiste, acabou por te proteger e de volta te trazer, fortalecendo-te, não te deixando esmorecer, levando-te a reconhecer a beleza do muito que viste lá do alto e que, agora podes reabsorver, consciente de que a prova por que passaste te devolveu, em dobro, a alegria de viver e a capacidade de respirar sem te faltar o ar…




 Sofia Cardoso

14 de dezembro de 2014

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