quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vazio

A pior coisa na vida é, imagino, porque só poderá ser, a perda de um filho.
A nossa morte não bate à porta nem pede licença para entrar. Simplesmente arromba a nossa vida e acaba com tudo, sem dor, sem angústia, sem consciência, pelo menos no momento exato em que chega. (Sofrimento de doenças prolongadas à parte…)
Coisa bem diferente será a morte de um filho. Essa transforma facilmente uma mãe ou um pai num morto vivo. Mata-o lentamente, dia após dia, numa espécie de eterna tortura. Pode respirar, andar, amar e até sorrir mas de alma e coração despedaçados até ao seu próprio fim.  
Um filho é um prolongamento da existência de seus pais, é a união dessas duas faces que, por uma vida inteira ou por instante que seja, foram metades de um encaixe perfeito. É a sua maior herança para este imenso mundo. Sim, é suposto que deixem e não que sejam deixados! E, ainda assim, partem tantos filhos antes dos pais todos os dias, por vezes de forma tão estúpida, tão cruel ou mesmo tão irónica… Que tristeza, que tormenta, que angústia, que medo…!
Pode ser o estupor do “descuido” A, ou o raio do acidente B ou a sacana da doença C. Será sempre inesperado, prematuro, revoltante...
Mesmo na pior das perspetivas, uma mãe ou um pai não perdem a esperança. Aguentam-se, firmes no amor, crentes na vitória até ao fim. É assim que funciona. É assim que tem de ser, mesmo quando acabam por perder a guerra ao fim de várias vitórias em pequenas grandes batalhas.
Seja como for, qualquer A, B ou C que esteja na origem do fim é inconstitucional perante a lei da natureza parental. Simplesmente não é justo, não é previsível e muito menos aceitável.
Quem passa por tamanha provação jamais conhecerá dor maior. Pode seguir em frente, aguentar a infelicidade, a raiva, o desgosto… Superar, de alguma forma, digamos… Todavia, o vazio deixado permanece como terreno árido onde nada mais floresce, para sempre.
Não há preparação para algo assim. Não há garantia, seguro ou manual de instruções que valham a quem perdeu tudo, por mais intrujado que se possa sentir.
A ausência de um filho não se compensa. A presença de um filho não se substitui. O buraco não se tapa. O vazio não se preenche. Esta será, suponho, simplesmente a realidade mais irreal de enfrentar.


Sofia Cardoso
20 de fevereiro de 2013

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