quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Amor Incondicional?!

Há uns dias, perguntava-me uma amiga, inconformada, se não poderia existir amor incondicional. Se este não era possível…
Entendo… As pessoas não se conformam, não aceitam, aquilo em que não querem acreditar… Eu já aceitei.
Parei, fiz uma retrospetiva e voltei devagarinho ao presente e, olhando tudo à minha volta com atenção, parei novamente.
O amor incondicional existe… Até embater violentamente, com a mesma força com que até aí lutou, numa redoma de vidro que se fecha à volta de quem dele desiste.
Nesse momento, a dor do embate fá-lo deslizar, agonizante, vidro abaixo e ali ficar, caído, depois de nadar km sem nunca desistir, enfrentando todas as marés e, assim, morrendo na praia, terminando.
Aceitando que o amor incondicional existe, aceito também que não o aceitar seja opcional.
O que aceita e supera quase todas as condições, não supera, contudo, a condição de não ser aceite.


Sofia Cardoso
25 de fevereiro de 2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Balde d' Água Gelada

Fui nomeada para o "Ice Bucket Challenge" já tardiamente e quando o calor se despedia. Não respeitei, no entanto, a nomeação e, de resto, mais depressa e melhor corresponderia contribuindo financeiramente para a causa, sem vídeo ou gasto de água polémico e excessiva euforia.
Em matéria de solidariedade, como em tantas outras, prefiro o gesto discreto ao "show off" concreto.
Ora, lembrei-me disto porque dei comigo a constatar que falhei o desafio mas, curiosa e ironicamente, têm sido muitos os baldes de água fria que tenho levado ao longo da vida e, pior, com a desvantagem de isso sequer beneficiar causa nenhuma...
Água tão gelada e vinda de baldes tão distintos que um dia fico “Frozen” e depois não me venham cá cantarolar «Já passou! Já passou…!» que não vou acreditar de forma alguma.
Na verdade, começo a desconfiar que haja lá em cima quem não vá muito à bola com a minha pessoa e adorava saber porquê, com tanta erva daninha enraizada cá em baixo a fingir-se da mais fina flor de "bouquet".
«Vais ser recompensada, tem calma…» - ouvi e acreditei tantas vezes… E quando menos espero… Toma lá nova descarga de água gelada! E, teimosa, o mais grave é que não me habituo nem por nada!
Com tanta cunha que já tenho no céu, só não percebo que tipo de cartas, andam por lá a lançar. Contudo, é a minha vida que, alheios à minha angústia, parecem apostar num qualquer jogo de azar.
Façam lá o favor de parar de lançar baldes, não vá eu congelar, e lancem antes cartas para começar a ganhar, que a brincadeira e a resistência têm limites e eu estou cansada de ser presenteada pela minha resiliência desta maneira...


Sofia Cardoso
22 de fevereiro de 2015


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Incapacidade

Poderia enveredar pelo doloroso caminho já tantas vezes percorrido e focar-me na perda… Também poderia deter-me num medo mais comum e muito menos inquietante e dissecar os sonhos que aqui e ali me fazem gelar na presença de um ser rastejante, escamoso, comprido e venenoso a perseguir-me. Mas não. Há um medo maior, porquanto mais lato...
Senhora de mim como ninguém, não posso deixar de considerar a incapacidade como o meu maior receio.
Temo a incapacidade física causada por doença ou acidente. Aquela que atira um corpo enérgico, que corre atrás da vida, para uma cama de um qualquer quarto lúgubre ou para uma cadeira que não mata mas limita. Sim, temo. No entanto, mesmo que este cenário realidade se tornasse, teria sempre intata a minha garra interior que me poderia levar onde quisesse, nem que tivesse apenas a imaginação como meio de transporte.
Daí que o medo suba um degrau na escala rumo ao pânico e passe a referir-se à incapacidade de discernir, de decidir, de agir. O bloqueio da depressão, do buraco sem fundo em que algumas pessoas caem e o qual negarei em mim até à morte, ainda que o tema. Temo-o, sim, porque o reconheço, o respeito e, inclusivamente, tudo faço para ajudar quem com ele se debate.
E depois, de volta à maternidade, incontornável desde que o cordão umbilical é cortado, unindo assim dois seres até à eternidade, surge o medo último, o do topo da escala, roçando o terror… A incapacidade de educar. De semear os grãos de princípios básicos que florescerão em pétalas de valores vários, coloridos, perfumados, atrativos a outros seres que neles reconhecerão vida pura onde pousar.
Parece que ninguém teme fazer filhos… Sob determinado ponto de vista, é uma pena, pois considero que este receio seria extremamente positivo, se se instalasse. Responsabilizaria mais quem assume este compromisso perpétuo que deveria elevar-se a missão na vida de todos quantos se arrogam esse direito.
Feitas as contas aos degraus, o que importa mesmo é estar em forma para correr deles, escada abaixo, sem olhar para trás.
Há que parecer forte e ser implacável no combate à vulnerabilidade. Confiar cegamente no que está cá dentro e fazê-lo de escudo a tudo o que adversamente vier de fora.
Ser guerreiro, mesmo em tempo de paz!






     

Sofia Cardoso 
21 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Quanto mais...

Quanto mais corro,
Mais gosto de correr.
Quanto mais me esforço,
Mais gosto de ver acontecer.
Quanto mais luto,
Mais resistente passo a ser.
Quanto mais acredito,
Mais vitórias posso obter.
Quanto mais me alegro,
Mais sorrisos tenho para oferecer.
Quanto mais simplifico,
Mais preocupações deixo de ter.
Quanto mais me dedico,
Mais recompensada posso ser.
Quanto mais fundo desço,
Mais depressa subo a valer.
Quanto mais calma estou,
Mais capacidade tenho de entender.
Quanto mais experiencio,
Mais lições tiro para aprender.
Quanto mais tolero,
Mais pacífica consigo ser.
Quanto mais caio,
Mais razões tenho para me erguer.
Quanto mais sofro,
Mais força ganho para enrijecer.
Quanto mais sonho,
Mais persisto até vencer.
Quanto mais me relaciono,
Mais emoções para me enriquecer.
Quanto mais vivo,
Mais gosto de viver.
Quanto mais escrevo,
Mais gosto de escrever.


Sofia Cardoso
19 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Anos de Lã

A vida é mesmo uma meada de relações enroladas e por vezes até embaraçadas…! Vou puxá-la pela ponta em que está e desenrolá-la um bom bocado…
Conheço alguém que faz anos hoje, já uma bela soma, apesar de muito bem disfarçadinha. Quando se diz quantas décadas são, ninguém acredita. De resto, que importam os números? Importam, sim, as vivências e a pessoa de que e para quem escrevo tem uma coleção admirável delas.
No entanto, a sua existência faz-se de muitas mais coleções para além das vivências. Coleciona fotos, viagens, escritos… (E que profundidade têm os seus escritos…!) Tenho esperança que enrole a meada muito mais para que ainda venha O livro.
O mais engraçado, é que o reencontrei e só verdadeiramente aí o conheci, a título pessoal, há meia dúzia de anos mas faço parte das suas coleções há quase três décadas. Então, talvez devesse dizer que o reconheci.
Na verdade, não recordo o rosto por detrás da lente (tenho pena…). Recordo apenas (e já não é mau) os muitos abraços dados às árvores, de cabelo esvoaçante, posando para a lente da sua máquina desconhecedora da era digital.
Nem vou fazer contas para saber que idade tinha nessa altura da sua vida, talvez a idade que parece agora… De resto, novamente, que importam os números? No entanto, lembro-me que idade tinha eu… 6 anos… Precisamente a idade que tem agora a menor das meninas que me pertence, à frente da lente. Dava então, eu, os primeiros passos no mundo das letras, como ela os dá agora, também. Aprendia ainda a enrolá-las e agora desenrolo-as para si, quase 30 anos depois…
Fez parte da minha infância, eternizou o meu rosto da altura e desapareceu, rolando a vida em negativos de fotografias de colégios espalhados pelo país.
A meada continuou a enrolar-se, a enrolar-se e eis que a sua lente desata a eternizar momentos únicos de outras meadas feitas agora da minha lã… Assim, por acaso, a km de distância do ponto de partida da nossa história e sem saber.
O curioso da coincidência de uma amizade gigante comum… E, ainda, a afinidade nas letras que, imagine-se, até fez de nós, crescidos colegas de carteira, de volta à cidade de partida. E cá estamos hoje, 30 anos de acontecimentos enrolados entretanto, a trocar galhardetes literários e experiências no meio do emaranhado dos nossos dias.
Alguém que ambos bem conhecemos e estimamos, diz que eu sou a amiga dos pormenores e de muitas gavetas (um dia esmiuço isto num qualquer outro escrito…) Pois acho isto das coincidências das nossas meadas, uma delícia de pormenor que fiz questão que não ficasse na gaveta!
Desenrolando de uma vez…! Desejo, neste dia que será especial – por mais que ache que é só mais um de brincadeira pela vida – que a sua meada se vá enrolando mais e mais, influenciando outras meadas, e que a lã não acabe nem se embarace. Ainda pretendo escrever-lhe qualquer coisa de jeito quando chegar aos 100 a parecer 60 (isto se eu mesma não estiver já a enrolar a língua…). Aí, junto-me com as minhas “meadinhas” e escrevemos a três mãos…
Até lá, Um grande beijinho de parabéns pelo número feito de um oito que brinca com o zero que tem à direita como se este estivesse à esquerda.
E, por fim, enrolando as suas deixas com as minhas, fica o conselho: “sinta-se bem” com a pureza da lã da sua meada e que esta o continue a fazer “viver como quem brinca” e sempre com a mesma leveza!
 Sofia Cardoso
13 de fevereiro de 2015

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Dádiva

É curioso como, por vezes, quando o nosso ego não está nos melhores dias, ao invés de nos focarmos ainda mais nele, olhamos antes em redor.
Pode até ser uma forma cobarde de escapar à nossa realidade mas se isso fizer a diferença na realidade dos outros, melhor assim.
Foi mais ou menos isto que me impeliu, há quatro meses, de me lançar num desafio que há muito ansiava abraçar, apesar do receio que ao mesmo tempo me continha. Tornar-me dadora de sangue. Mais-valia a acrescentar à potencialidade de vir a ser dadora de medula óssea, causa a que já me associei há uns anos.
Felizmente, no que toca às dádivas de sangue, hoje em dia as recolhas que lhe estão associadas são sobejamente divulgadas, talvez porque as reservas estejam também sobejamente necessitadas. Razão mais do que suficiente para que pessoas saudáveis entre os 18 e os 65 anos, pesando mais do que 50 kg se proponham contribuir.
Eu própria, não muito amiga de agulhas e ambientes hospitalares, que me dão inclusive alguma náusea, tinha algum receio, nomeadamente, de me sentir mal ou mesmo de cair para o lado…
No entanto, pesando a probabilidade menor de isso acontecer com a enormidade da vantagem que a três outras vidas isso possa trazer, realmente não há que temer e há que avançar sem mais pensar.
Fi-lo, como disse, há quatro meses e, de facto, foi tão simples e tão pouco demorado que a partir daí torna-se quase imperativo repetir.
É real a necessidade de repor continuamente as reservas, como é real a certeza de que apenas uma dádiva pode salvar três vidas.
A mim, isso deu que pensar e quando me apareceu uma recolha à porta de casa, a um sábado, num dia em que não tinha nada programado e estando eu em condições de o fazer, percebi que não tinha mais desculpa para não tentar.
Hoje, estou muito orgulhosa de o ter feito por poder, assim, comprovar o quanto na realidade não custa nada e de verificar, com muito agrado, que o serviço funciona tão bem que, a partir da primeira recolha, não só recebemos rapidamente o resultado das análises efetuadas posteriormente ao nosso sangue, como somos informados adequada e atempadamente do momento e local em que poderemos voltar a contribuir.
Por isso, lá fui, pela segunda vez, ao mesmo local, contando com o profissionalismo e simpatia da mesma equipa, contribuir com a mesma facilidade e hombridade.
Posto isto, só espero que a vida me dê saúde para o meu sangue continuar a doar, já que me sinto verdadeiramente útil, humana e realizada por num pequeno e anónimo gesto poder ajudar quem numa grande aflição se possa encontrar.  









Sofia Cardoso
07 de fevereiro de 2015


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Reviver

Sempre tive o hábito de, quando as minhas amigas faziam anos, felicitar também as suas mães. Sempre o fiz por ter a convicção de que elas estavam, na realidade, de parabéns em primeira linha. Afinal, sem elas não teria conhecido as aniversariantes.
Pois este meu gesto ganhou uma nova dimensão, um cunho mais pessoal, desde que fui mãe pela primeira vez. Acho mesmo que as mães devem ser as principais acarinhadas no dia em que supostamente os reis da festa são os filhos.
Posso enumerar uma série de razões mas quem é mãe deve saber exatamente por que o sinto assim.
A gravidez é, sem dúvida, uma fase sempre única na vida de uma mulher, por mais filhos que possa ter. O parto, um momento glorioso, sobretudo se natural.
Só que nem todas as gravidezes e nem todos os partos são “passeios no parque”… Por vezes são mais uma “via-sacra” que parece não ter fim…
Tive o privilégio e a imensa felicidade de experienciar um parto natural de primeira filha! Maravilhoso… Indescritível… Memorável… Supremo momento de glória…
E nem ouso queixar-me muito da dor (sim, porque qual epidural, qual quê, nada disso no hospital público em questão, ao tempo…) porque acho que não é nada tão dramático assim, nada que não seja suportável e depois a emoção e a alegria superam tudo…! Se me lembro das dores que tive? Claro que me lembro mas ficaram para trás, guardadas no fundo da memória. Já a intensidade do momento de pegar na minha filha pela primeira vez depois de a ter trazido ao mundo sem qualquer ajuda extra está bem viva e estará para sempre cá dentro, na lembrança, no coração…! Não há na vida sensação comparável.
À segunda, a coisa foi diametralmente oposta. Se a primeira tinha pressa de sair e depressa se colocou a jeito e o fez, a segunda entendeu que se estava muito bem sentadinha cá dentro pelo que se eu quisesse que a tirasse… Cesariana!
Desde que soube que não adiantava, que ela não me ia fazer a vontade de nascer naturalmente, fiquei como que amuada, para não dizer contrariada…!
Bem, lá teve que ser e correu tudo bastante bem, não fora o meu útero ter resolvido contrariar-se também, descontraindo-se…
(Bolas, mas porque é que eu resolvi ser comichosa?!) Ok, fiz cesariana, paciência, o que interessava era que ela nascesse bem e com saúde e mais nada. Contudo, o meu amuo deve ter levado “alguém” (lá em cima, entenda-se!) a achar que eu merecia uma lição.
No meu caso particular, era esta a “via-sacra” a que há pouco me referia… Coisa para uma meia hora, nada mais mas uma meia hora que chegou bem para as quatro horas de trabalho de parto da primeira.
Não vivi, de facto, um bom momento quando, ao fim do dia do nascimento da minha segunda princesa e quando nada fazia prever (ela já estava comigo havia quase sete horas…), tive uma senhora hemorragia…
Valeram-me os bons (e prontos!) cuidados médicos prestados e a coisa resolveu-se.
Só que nunca mais esqueci o sofrimento desses minutos que dispensam descrição.
Aconteceu, passou, ficou tudo bem, sem sequelas ou problemas de maior, mas deixou as suas marcas e lamento que, involuntariamente, este momento me venha sempre à memória quando celebro este dia…
No entanto, assim ganhei ainda mais respeito pela saúde, pelos profissionais desta área, pela vida…!
Não podemos dar nada por garantido porque às vezes nos sai tudo ao contrário e por isso mesmo devemos valorizar ainda mais cada sucesso com dificuldade conseguido.










Sofia Cardoso
02 de fevereiro de 2015