sexta-feira, 20 de março de 2015

Carta

Querido Pai,

Pediste-me muitas vezes, já crescida, veladamente, naquele jeito teu de quem me quer ler o coração, que te escrevesse uma carta.
Pensei várias vezes em fazê-lo, sob vários pretextos e acabei por não te cumprir este desejo.
Também sabes como sou sincera e como teria tanta coisa boa e difícil para te dizer, típico de quem pensa, fala e escreve que se farta.
Da última vez que tivemos uma conversa séria, pelo telefone porque a distância já era uma realidade há muito, desliguei e fiquei sozinha a chorar, deste lado, como aposto que ficaste tu, de igual modo, do outro lado.
Foi uma conversa dura que relembro muitas vezes, sobretudo porque uma das coisas que atiraste para o ar, no auge da exaltação, se virou contra ti pouco tempo depois. Tão pouco tempo depois que isso me dói até hoje… Não sabias quanto tempo tinhas e ainda assim maldisseste-o. Se soubesses… Talvez nem te importasses ou quem sabe de outra forma te comportasses.
Só que eu importo-me porque este ano, pela terceira vez, não tenho quem presentear, a quem ligar, apenas quem lembrar…
Salva-se a recordação da alegria da última surpresa que te fiz neste teu dia.
Eras de surpresas, como eu, e em 2012, não fosse o mundo acabar, como profetizado, presenteei-te com um bilhete para veres o José Carreras nos melhores lugares da plateia e te deliciares com a sua voz.
O canto lírico era uma das tuas paixões, das muitas que partilho, e sei que este foi um momento que gozaste que te fartaste.
Foi no Dia do Pai que te ofereci os bilhetes, o espetáculo foi a 16 de junho e partiste a 25 de outubro…
O mundo afinal não acabou e três anos volvidos, apesar da saudade, remeto-me aos bons momentos nunca esquecidos que foram vividos de verdade.
Honestamente, entendo que tenhas partido cedo demais. Caso contrário, imagino que hoje sofrerias muito mais do que outros pais.
Não sei se me vês. Gostava que visses porque assim saberia que acompanhas as tuas netas e o seu crescimento. Só que se me vires, de muita coisa que gostaria de te ver poupado, terias agora conhecimento…
Não sei no que acreditar mas prefiro não pensar porque certezas não terei e o teu sofrimento nem quero imaginar.
Prefiro saber-me aqui sozinha a seguir em frente do que saber-te algures a tentar proteger-me em angústia permanente.
Mas fazes-me falta, bolas! E perdemos, todos, tanto tempo na vida com coisas tolas…!
Gosto muito de ti, sabias? Com a mesma lamechice e ao pormenor com que com tudo te comovias.
Sei que me tornei na pessoa de que te orgulharias, mas estou a trabalhar para algo maior te poder vir a dedicar, algo com que muito feliz, sei que ficarias.
E é este o único presente hoje possível… A esperança de um amanhã sorridente e incrível.

       
Sofia Cardoso
19 de março de 2015

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