domingo, 30 de agosto de 2015

Pouca-terra, muita conversa!

Uma viagem de comboio é sempre uma animação. Histórias e conversas paralelas, nunca faltam mas a de hoje superou as expectativas.
Numa qualquer paragem do Algarve, a cujo nome nem liguei, entrou um casal, dos seus setenta e muitos, presumo, mesmo castiço.
Ele, acelerado, com a sua mala antiga, quase de cartão, qual emigrante que, vim a perceber, foi em França. Ela, lá atrás, não querendo saber do número do lugar marcado e a querer, em qualquer um, aterrar.
Algarvio já marafado, ele insiste em procurar o seu lugar, refilando: «ma que jêtos… Nã me vou sentar no lugar dos outros!» Algarvia descontraída, ela continua a teimar que podiam sentar-se num qualquer e se aparecesse alguém… (Aqui, já eu sorria…)
Venceram, o bom senso e a persistência dele, e lá se sentaram nos seus devidos lugares, permanecendo em silêncio. Seria por pouco tempo…
Sentada sozinha, viajava, do outro lado da coxia, uma moça que estava a pedir conversa. Força de expressão, claro! Na verdade, a coitada não pediu nada mas a senhora não conteve a sua curiosidade e sob pretexto de qualquer introdução subtil a respeito do imaginado final de férias, lança o ataque, bombardeando-a de perguntas diretas.
A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: «se a rapariga não quiser ir na dela, como se vai safar desta…?»
No entanto, surpresa das surpresas, a moça, para além de afável e paciente, revela-se igualmente tagarela e entusiasma-se o diálogo que, inadvertidamente, me deixa boquiaberta e perdida de riso.
A cena que alguma vez vi que melhor se aplica à comparação comum com as cerejas. Quando se começa…
À medida que a conversa fluía em bom tom e inacreditavelmente detalhada para os dias que correm, só me lembrava do muito que se discute a questão da privacidade nas redes sociais.
De repente, dou comigo a saber que o casal mora em Armação de Pêra e que a rapariga, que entretanto já revelara o nome sob a pele dos seus 25 anos (ainda que lhe dêem apenas 17 ou 18, diz ela…), mora em Lisboa, perto do Marquês.
O casal seguia para o Montijo. Têm lá uma filha (são quatro, ao todo…), onde vão passar uns dias e conhecer a festa da Moita.
A moça, advogada (quase tudo explicado!) a fazer um ano de profissão agora em setembro, ficaria por Grândola para acabar as férias embora prefira o Algarve, onde esteve, perto de Almancil. «Ah, em Quarteira?» — Atira a senhora. Ao que ela responde: «Não! No Ancão!» (Eu continuo perdida de riso…)
Fala-se da crise, dos anos emigrados em França, sem arrependimentos, e que na Europa as coisas não estão mais famosas. A jovem discorda, alegando que não foi isso que sentiu na Alemanha, onde também estudou. Provavelmente, um ano de Erasmus porque a escola foi em Telheiras, onde os senhores têm também uma filha a viver.
Falaram dos netos e daí até à típica impingisse dos filhos à moça, foi um saltinho, só que em sentido inverso, pois dizia-lhe a sabedoria da idade deles estar bem sozinha e ela é que fazia questão de afirmar, convictamente, que queria casar e ter filhos, apesar de se fartar de trabalhar.
Nisto, num abrir e fechar de olhos se chegou a Grândola e um «boa tarde, tudo a correr bem» pôs fim ao diálogo, com a jovem a apear-se, não sem antes a senhora se desculpar muito por falar demais, ainda que, quanto a mim, tenha sido tão paciente e amavelmente correspondida.
Fez-se silêncio na carruagem e os senhores seguiram viagem, sem mais dialogar, até saírem na estação do Pinhal Novo, novamente um com o outro a refilar. Aquela rabugice de quem provavelmente já partilha cama e mesa há uma vida e que assim se entende, sem deixar de se amar.


Sofia Cardoso
29 de agosto de 2015 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Braveheart

Dizerem-te constantemente que és forte/corajoso é semelhante a oferecerem-te um doce envenenado. A parte doce é a que embucha o teu ego, quando sentes reconhecido o teu esforço, a tua capacidade de lutar, por alguém que te admira e se orgulha de seres assim. Já a parte envenenada é a que te agonia, quando te faz sentir entre a espada e a parede, por alguém que vê nessa tua capacidade apenas uma facilidade gratuita que quase te obriga a continuar a aguentar tudo sem te queixares.
A forma como o encaras quando o ouves, se como elogio reconfortante, se como constatação intimidante, depende obviamente de quem to dirige e do tom com que o faz. E depois também da forma como o interpretas. É fácil fazer a distinção e habituas-te facilmente à interpretação.
Seja como for, não te iludas. Por mais que te sintas forte/corajoso no melhor dos sentidos, não és, nem nunca serás o Rambo. Lamento informar-te que ele não existe.
E nem vale a pena tentares sequer aproximares-te da pele fictícia dele e armares-te de todas as maneiras, apetrechares-te com todo o tipo de armamento. Primeiro, porque tudo isso te vai impedir de ver bem o inimigo, depois porque tudo isso te vai pesar bastante e, por fim, simplesmente, porque de nada te vai adiantar.
O segredo é seres quem és e buscares a força que vem de dentro, lutando com a maior de todas as armas: a confiança que tens em ti e juntá-la à certeza de que não há adversidade que dure para sempre.
Só que essa confiança que te dará força não faz de ti invencível, nem melhor do que ninguém e muito menos te pode fazer sentir que és obrigado a suportar tudo. Tens, como toda a gente, os teus limites, bem como o direito de fraquejar e até de ao comprido de estenderes, se disso precisares.
Só não desistas… Ser forte/corajoso é qualidade que não tem que ser inata, pode ser conquistada, trabalhada, não como uma obrigação mas como uma mais-valia. Deves saber render-te como forma inteligente de defesa para parar, descansar, recuperar e voltar a lutar. Nunca te sintas menor por fraquejar. Só nunca deixes de confiar que te consegues (e deves!) levantar.


Sofia Cardoso
27 de agosto de 2015

sábado, 22 de agosto de 2015

Tudo o que me deste

Momentos como o desta noite deixam-me sempre alcoolizada de emoção e normalmente só no dia seguinte, sob ressaca musical, me lanço a escrever. No entanto, hoje não consigo desligar sem antes desbobinar porque amanhã é sempre tarde demais e preciso mesmo de fazer o que ainda não foi feito.
Não sabia bem o que esperar de um concerto teu, em pleno verão, num espaço aberto, repleto de cadeiras ocupadas, com um palco ali tao perto, depois de te ter visto no Terreiro do Paço, repleto de pessoas de pé, com um palco lá tão longe, em pleno inverno…
Começaste tão bem, viajando connosco, fazendo com que logo aí a cadeira tão atrás me começasse a fazer comichão. Puseste-nos à vontade para nos levantarmos e pouco depois estávamos lá no fundo para não incomodar quem se mantinha confortavelmente sentado. Daí até percebermos que, na verdade, de forma tão inesperada quanto desejada, querias mesmo era que nos aproximássemos para nos sentirmos, contigo, de regresso a casa, foi um saltinho e depressa tinhas parte da plateia (a atrevida e muito menos preocupada com a visibilidade de quem se mantinha sentado do que com a tua manifesta vontade…) literalmente aos teus pés.
A partir desse momento, foi um crescendo de sensações, de recordações, que me levaram da idade adulta de volta à adolescência, 20 anos lá atrás, sentada nas aulas de filosofia a eternizar no papel as letras das tuas músicas, passando do riso estridente ao choro silencioso em 20 segundos, agora ali à tua frente.
Não posso ver um homem sentado ao piano: facto. Os teus dedos a deslizar nas teclas, enquanto as pingas de suor visivelmente pingavam e os meus dedos a deslizar sobre a face, enquanto as lágrimas discretamente escorriam, tudo em perfeita sintonia. Porque a música, não me canso de repetir, faz magia. Aleluia!!!
E de pé, estivemos, assim, todos sentados à tua mesa, convidados a saborear o A-M-O-R. Todos unidos pela intemporalidade do teu sucesso, que cria pontes entre gerações, tornando possível a imagem, digna de moldura, de uma filha pequenina, às cavalitas da mãe, sabendo cada nota do caminho de volta para os seus braços. Que ternura…!
Sim, há noites que passo sem dormir, mas vale sempre a pena porque deste-me um momento lindo para agarrar as palavras que registam uma noite encantada para o resto da vida…
E tudo o que eu te dou é o resultado de tudo o que nos deste a todos nós…


Sofia Cardoso
21 de agosto de 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Recordando-te...

Partiste há um ano…
…Que dizer, neste dia?
A vida seguiu, impiedosa,
Obrigando a novo plano,
Que renovasse a energia,
Que te deixasse orgulhosa.
Não eras de lamechices
Nem quero ir por aí.
Só que sem pieguices
Preciso lembrar-te aqui.
Porque sinto saudade,
Não procuro esquecer
E imagino-te a sorrir
A ver-nos de verdade,
A todas querer proteger,
Não nos deixando cair.
Eras feita de garra
E é a essa inspiração
Que a malta se amarra
Para prosseguir a missão.





 Sofia Cardoso
17 de agosto de 2015

domingo, 16 de agosto de 2015

Tronco

A quantidade de histórias que contaria, se de uma boca se tratasse… A quantidade de fotos que eternizaria, se fosse uma lente de uma máquina fotográfica… A quantidade de sons que reproduziria, se tivesse as capacidades de um altifalante… 
Contudo, não é uma boca, nem uma lente fotográfica e muito menos um altifalante. Qual “Big Brother” enraizado na terra, silencioso espectador da natureza humana, é muito superior a tudo isso.
Desconheço-lhe a idade mas é intemporal no meu próprio tempo. Viu-me bebé, criança, adolescente, adulta e vai, muito provavelmente, ver-me envelhecer e sobreviver-me. Como eu, tantos que eu conheço e milhares de desconhecidos mais.
Um exemplar perfeito do estoicismo da natureza, face à imperfeição exemplar do exibicionismo do homem que se pavoneia, todos os verões, diante de si e o deixa quase só, todos os invernos.
De tudo um pouco Já deve ter visto e ouvido por aqui e ainda assim não se pronuncia. Limita-se a crescer, a embelezar a paisagem, a todos, na sua sombra, acolher.
Passa do extremo, da maior das confusões, ao extremo oposto, da maior das solidões. E assim vê passar os anos, multiplicar as gerações. Sem queixumes, críticas ou desilusões.
Talvez, por isso, dure mais do que todos nós. Vive apenas da chuva, do sol, e da paz que o rodeia e tudo o resto tanto lhe faz.

Sofia Cardoso
16 de agosto de 2015

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Déjà vu

Sei, no essencial, exatamente o que de ti herdei e, tirando a cabeleira forte, farta e (ainda não mas de futuro garantidamente) grisalha, o que passou para mim tem muito mais a ver com o interior do que com o exterior, com a forma de sentir, de amuar e de fugir para dentro, do que com gestos ou características físicas.
E depois também o prazer nos petiscos, o gosto pelo piano, por ópera, pelo clássico, pela arte em geral, deixando de parte a literatura, mérito, entre outros, dos genes maternais.
Só que hoje tive um déjà vu como nunca tinha tido, com que me impressionei como não me tinha impressionado com outras semelhanças ou lembranças até aqui e que ficou cá dentro, a fervilhar, até me obrigar a vir aqui dá-lo a conhecer, mesmo não tendo a certeza de o conseguir descrever.
Basicamente, atirada para um pufe, recuperando da dádiva de sangue que fiz hoje, (e aqui, zero semelhanças contigo que eras “caguinchas” para caramba em matéria de hospitais…) a propósito de qualquer comentário que ouvi na televisão, sai-me uma boca irónica/seca mas pretendendo ter graça, sorrio do que eu mesma disse, sem pensar, enquanto automaticamente fecho os olhos, me recosto, colocando o pulso na testa.
E foi só isto que disparou na minha cabeça como um flash daqueles que nos transportam no tempo a uma imagem que tão bem conhecemos.
Não sei se é a saudade que me faz imaginar coisas ou se realmente este meu gesto era uma réplica de ti, mas que naquele instante te vi a ti, vi…!


 Sofia Cardoso
12 de agosto de 2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Dolce fare niente

Todos precisamos de parar de vez em quando. Sair da rotina, gozar o tempo pelo tempo, sem lhe dar nada ou pedir nada em troca…
Hoje estou assim, parada, desfrutando apenas do prazer de não fazer nada. (E, ainda assim, escrevo!)
A vida é muito intensa. Temos sempre muito em que pensar e por vezes pensamos em tudo e em todos menos em nós próprios, sobretudo quando temos família, filhos…
É bom estar sempre ocupada, ter sempre o que fazer e em que pensar. Comigo não poderia ser diferente. Gosto de tarefas, de planos, de organizar os dias em função do que possa ter que fazer mas também preciso de estar comigo mesma e nem sempre isso é possível, ainda que necessário. Essencial, mesmo…!
O segredo é fugir (vá, fingir que fugimos…!) Para descansar, para parar, para estar, simplesmente.
Não ter horários, preocupação com refeições, sentirmo-nos livres, dormir, ler, passear, escrever…
Há qualquer coisa de falso nesta pretensa liberdade porque quem é mãe, nunca se sente verdadeiramente livre ou despreocupada… De todo o modo, é bom recarregar baterias, apenas seguir e deixar o tempo fluir.
Para isso tem que haver predisposição (fácil!) e depois disposição para tirar o maior proveito da situação.
E não é preciso ir muito longe ou por muito tempo. Às vezes umas horas podem fazer milagres com o nosso estado de espírito.
Relaxar o corpo e a mente é preciso e, quando sinto essa necessidade, não a ignoro, simplesmente porque não consigo.
E agora, lamento deixar-vos, mas vou voltar ao estado de letargia que motivou estas palavras. Afinal, tenho que as fazer valer sob pena de perderem todo o sentido.





Sofia cardoso
10 de agosto de 2015

sábado, 8 de agosto de 2015

Cena de uma noite de verão

Oh, vida difícil…!
Estou aqui indecisa entre deixar a janela aberta para me refrescar com a corrente de ar, pagando o preço de, com o som de um maldito karaoke levar (será karaoke ou um daqueles artistas que canta de tudo quanto não é seu…?) ou fechar a janela, em prol do silêncio, correndo o risco de sufocar.
«Sexta-feira de agosto em terra de turista, esperavas o quê? Ainda não te habituaste?» Pergunto-me, repetidamente, sem no entanto me conformar, apesar de andar nisto há anos suficientes para “comer e calar”.
É que a malta também dorme em agosto, sobretudo quem cá vive, mesmo que até esteja igualmente de férias.
Os acordes acertados da guitarra são marginalizados pela voz estridente que parece agradar a quem vai aplaudindo entusiasticamente e eu aqui, com isto, a ficar doente.
Adoro música ao vivo mas não assim, imposta de forma drástica ao ouvido. E também sou festeira, só não gosto que a festa me invada a casa, pela janela, mesmo sem me apetecer nela participar e sem nada que quanto a isso possa fazer.
É quase uma da manhã e não durmo, nem ouço bem a TV, nem leio, porque lá fora é o que se vê. Ou melhor, se ouve, ou se tolera enquanto que cá dentro quase se desespera.
Não somos obrigados a gostar e desejar festa diária ou sequer todos os fins-de-semana, somos? É que o principal sinónimo da palavra férias é, curiosamente, descanso, o que implica alguma paz, sossego e silêncio. Tanto mais se estivermos na nossa própria casa…
Calma, parece que alguém se calou e desandou. Posso, finalmente, ler umas páginas do livro que tenho à cabeceira (se o sono não me trair entretanto) enquanto lá fora os espectadores abandonam a vizinhança, batendo as portas dos carros, uma atrás da outra, como se continuassem a aplaudir, para depois, enfim, desligar a luz e conseguir dormir.
Hora de se deitarem, amigos, que a praia é mais saudável logo ao amanhecer e alguns dos habitantes locais (conterrâneos, talvez…) também estão de férias, se não se importarem.







    
 Sofia Cardoso
08 de agosto de 2015