domingo, 25 de outubro de 2015

Há 3 anos...

Há três anos, perdi o primeiro homem da minha vida. Aquele que mais me mimava, aquele que conscientemente nunca me abandonaria, aquele que me entregou, orgulhoso, feliz e confiante, a quem o faria…
Existem muitas formas inesperadas, injustas, penosas de perder alguém de forma definitiva. Já conheci duas delas, ambas diferentemente repentinas mas igualmente injustas. A primeira, por morte. A segunda, por desistência.
Acredito, embora doa ainda mais, que quis Deus com a primeira evitar um desgosto ainda maior quando chegasse a segunda.
Os últimos três anos têm sido um teste constante às minhas capacidades de resistência, de luta, de resiliência. E esta última semana tem sido vivida nos últimos dois anos com a mesma sensação de espera solitária e impotentemente sufocada da mesma semana vivida há três.
Não sei se vai ser assim para sempre mas ainda não consigo desligar das memórias desses oito dias de bomba relógio prestes a explodir, sem sequer ter temporizador à vista para saber quanto tempo mais para o ver partir.  
O nada poder fazer para evitar, o nada poder dizer para minimizar, o nada poder ouvir… Simplesmente não poder usufruir do direito de me despedir… Porque a medicina sabe como evitar o sofrimento físico mas não tem como evitar a dor psicológica destes momentos. Porque existe um médico perentório na hora de nos mandar simplesmente aguardar à cabeceira mas não existe quem nos dê colo e nos ensine a com isto lidar. Porque estamos lá todos, os familiares diretos (quem viria a desistir nem sequer esteve…) e os nossos amigos do peito mas cada um sozinho com a sua própria dor porque temos que parecer fortes uns pelos outros e a verdade é que não há como partilhar esta sensação de incapacidade perante a inevitabilidade de uma morte anunciada mas sem hora marcada.
Quando consegui estar sozinha no quarto, falei-lhe sem ouvir resposta, segurei na sua mão sem sentir que me sentia, sentei-me de olhar perdido sobre o Tejo e pensei na minha própria família do outro lado da margem, lá tão longe e senti-me tão sozinha… Inacreditavelmente, muito mais sozinha do que me sinto hoje…
Estas muitas recordações estão todas presentes, muito mais em sentimentos do que em imagens. Uma semana que culminou neste dia 25, do qual, a partir do telefonema matinal que pôs fim à angústia terminal, me lembro muito pouco. Sei que chovia…
Cá dentro, choverá para sempre. Não há como compensar este tipo de perda. A “ficha só cai” uns meses depois e daí em diante vamos aprendendo, cada um à sua maneira, a lidar com a ausência e a saudade. Choro, sem ninguém ver, muitas vezes; admiro, sem os conhecer, os casais de velhinhos por quem passo; invejo, sem querer, quem tem os pais ao seu lado…
…Mas sei que há provas na vida por que passamos sem entender que terão a sua qualquer razão de ser e é melhor aceitar e seguir do que perder tempo a discutir.
A melhor homenagem que lhe devo será sempre ser e viver o melhor que conseguir.


Sofia Cardoso
25 de outubro de 2015

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