sábado, 28 de novembro de 2015

Tia uma vez, tia para sempre!

Existem ex-mulheres, ex-maridos e, pasme-se, desde 2008, existem também, ex-sogros e ex-cunhados.
Na verdade, antigamente, legalmente falando, os laços de afinidade não se perdiam com o divórcio.
Pois parece que atualmente só não se perdem por morte de um dos cônjuges, pelo que, havendo divórcio, há efetivamente “ex-tudo”.
Diz-se, justificando a alteração jurídica, que antes ocorriam situações caricatas porque as pessoas podiam voltar a casar e passar a ter várias/os sogras/os. Sim? Então e os sobrinhos, sobretudo quando crianças, filhos dos ditos  ex-cunhados?! São, à luz da lei atual, despromovidos a ex-sobrinhos? Adoro a (in)congruência legal!... Mais do que caricato, é emocionalmente ridículo, ou mesmo cruel.
O casamento é (ou devia ser…) um laço dado e cortado por duas pessoas, apenas.
Códigos e leis à parte, existe, sim, algo muito superior a qualquer discussão jurídica, feita por cérebros e resolvida depois friamente no papel: um coração, feito de sentimentos gravados na carne, irrevogáveis quando verdadeiros. Um coração muito mais recetivo do que punitivo que, só em última instância, se fecha só para quem dele quer voluntariamente sair e onde há sempre espaço para quem nele quer espontaneamente existir, de forma descomplicada, sincera, correspondida, dedicada…
Pois se eu mesma toda a vida fui (sou e recuso-me a deixar de o ser!) sobrinha três vezes por parte de um só tio, por exemplo…!
Posto isto, asseguro que sou e serei natural, óbvia e orgulhosamente tia três vezes, desde ontem, em consequência de uma só união, não de sangue mas de coração.
De resto, se não precisei de ser casada para me considerar tia pela primeira vez desde o primeiro dia, é evidente que não será um malfadado divórcio que me impedirá de ser tia pela terceira vez até ao meu último dia.
Simples assim, desde 2003 e para sempre, assim as minhas três sobrinhas sintam o mesmo em relação a mim.   


Sofia Cardoso
28 de novembro de 2015 

sábado, 21 de novembro de 2015

Amachucado?

Pega numa folha de papel. Lisa, imaculada, perfeita. Agora amachuca-a (nem é preciso muito) e volta a abri-la. Consegues deixá-la exatamente como era? Claro que não…!
Também assim, se pegares numa peça de roupa delicada, uma linda e macia camisola de pura lã, por exemplo, e a colocares na máquina de lavar, numa temperatura mais elevada do que deverias e, como se não bastasse, ainda caíres na estupidez de a centrifugar como se não houvesse amanhã, quando a tirares da máquina, talvez encontres uma tesa camisola, tamanho de criança…
Estamos a falar de coisas e estas podem, verdadeiramente, mudar a sua natureza quando maltratadas.
Então… E as pessoas? Podem ser amachucadas, encolhidas (magoadas, basicamente) e irremediavelmente alteradas, corrompidas?
Acredito que não. Não na sua essência. E porquê? Simplesmente porque as pessoas têm duas capacidades essenciais que faltam às meras coisas: o poder de decisão e a inteligência. É certo que têm, igualmente, uma terceira: a memória, que se equilibra – às vezes com muita dificuldade – numa linha muito ténue entre uma capacidade ou uma fraqueza mas, querendo (essencial!) e sabendo o que é mais benéfico para si, conseguem endireitar tudo, mesmo não esquecendo como foram amarfanhadas.
Podes ter visto o teu coração amachucado por outros ou encolhido pela máquina da vida mas é a ti e só a ti que cabe a decisão de o estender para que – e por quem valha a pena que – continue a bater.










Sofia Cardoso
21 de novembro de 2015 

sábado, 7 de novembro de 2015

STOP

Sábado…
…Para variar.
Rodeada de almofadas,
Sem hora para acordar,
Sem pressa ou pressão
Para me despachar.
Pegar no carro,
Sair para passear.
Abrir um livro
A ouvir o mar.
Escrever umas linhas
Sem pensar.
Deixar o dia fluir
E o relógio ignorar.
Estar sozinha,
Não precisar de falar.
Sentar-me na areia
E o pôr-do-sol admirar.
Regressar à base,
Inventar o jantar.
Um chocolate 
A rematar.
Voltar ao livro,
Páginas devorar.
Pura e simplesmente,
Permitir-me parar.





Sofia Cardoso
07 de novembro de 2015