domingo, 12 de junho de 2016

Relaxar ou reclamar?

Não gosto mesmo nada de me demorar num sítio onde me está a ser prestado um mau serviço.
Muito para além do aborrecimento que já me causa o anormal tempo de espera ou a falta de qualidade/profissionalismo do atendimento, o que mexe mesmo comigo é o ambiente de crescente tensão que se gera em volta.
Na verdade, é, para mim, um imenso constrangimento assistir a vários clientes a refilar, entre dentes ou não. É como se tomasse as dores de quem flagrantemente está a falhar, talvez apenas porque não goste de sentir que alguém está numa posição vulnerável à minha frente.
É que eu nem sou muito exigente. Sou, até, bem pacífica e nestas questões muito paciente. Por isso, se já eu estou descontente, é porque a coisa está mesmo a correr mal e já há quem esteja verdadeiramente irritado.
Sentada de esplanada, rapidamente me apercebo de que a capacidade de resposta é bem demorada… Nem se entende porquê. Não está assim tanta gente, pelo que é fácil de concluir que se trata de pura falta de organização, simplesmente.
Não me salta a tampa porque não tenho pressa, nem feitio para isso. Aliás, sou muito mais o estilo de pessoa que prefere admirar e elogiar uma tarefa especialmente bem executada do que criticar por tudo e por nada.
Porém, quando vejo uma senhora mais despachada que não espera pelo empregado e vai logo buscar a lista, apressando-se a dizer o que deseja, passando descaradamente à minha frente, começo a não achar graça e lá tenho que intervir.
Desculpas solicitadas e aceites, pedido feito, limito-me, forçada, a ouvir os ecos que me chegam das mesas vizinhas.
Está tudo perfeitamente insatisfeito porque tudo está a demorar um século, porque os produtos não coincidem com o apresentado ou porque o prato não está servido de forma a justificar o preço cobrado…
À parte o mau humor de quem fácil e habitualmente de tudo reclama, mesmo que por vezes legitimamente, tenho que concordar que os empregados estavam, de facto, a desempenhar as suas funções pessimamente.   
Ainda assim, este não é o tipo de situação que me tire do sério. Há muitas outras coisas em que sou muito menos condescendente. Mas não deixa de ser aborrecido estar numa de relax e sentir o ambiente tão pesado que só apetece sair dali rapidamente.
Nestas circunstâncias, às vezes quase que me apetecia mais sair de fininho sem pagar do que reclamar mas, incapaz de o fazer (até ao dia…!) acabo sempre por me deixar ficar e, sem mais ondas, optar antes por, tão cedo, não regressar.


Sofia Cardoso
12 de junho de 2016

domingo, 5 de junho de 2016

Confidência(s)

Tenho tanto para dizer, tanto para agradecer, que as palavras não chegam…
A tua voz, sozinha, ilumina uma sala às escuras com o seu poder impressionante. Limpa, segura, afinada, possante… Depois junta-se-lhe a interpretação sentida, alegre, despretensiosa, cheia de vida… E os músicos e convidados que harmoniosamente te completam...
Tudo somado, resulta num espetáculo de uma riqueza única que entusiasma, contagia, comove…
De facto, o entusiasmado «És linda!» que vinha do meu lado da plateia é perfeitamente legítimo, ainda que não tenha partido de mim… A mim, apeteceu-me mais levantar-me como a prima Noélia e dançar convosco ao som de «Criatura da Noite». De mim, tiveste fortes palmas, tímidos assobios, notas mais ou menos afinadas, lágrimas discretas e alguns arrepios.
Palmas para o poder dessa tua imensa voz, instrumento que faz frente a uma orquestra inteira. Vénia para o genuíno momento de partilha dedicado a Ary dos Santos e sua «Desfolhada». Uau para o dedilhar hipnotizante de Custódio Castelo na guitarra portuguesa. Comoção para a magia das vozes do Coro do Conservatório de Olhão…
Foi, como prometido, mais uma grande noite, aplaudida de pé, demorada, merecida e reconhecidamente que deixou o meu coração muito contente.
Perante o teu imenso talento, acho fantástica a tua humildade e espero que tanto mais haja por dizer, para (nos) contar, para que nos continues a privilegiar até à eternidade…

 Foto: Teatro das Figuras

Sofia Cardoso
04 de junho de 2016