sábado, 26 de novembro de 2016

Hasta la Verdad...

O mundo inteiro já sabe que Fidel morreu mas quantos saberão verdadeiramente como aquele país, nas últimas décadas, viveu? 

Propagam-se ecos surdos por essa internet fora. Opiniões mais ou menos estudadas, politicamente influenciadas, com certeza até bem mais fundamentadas do que qualquer uma das minhas modestas considerações.
À parte o conhecimento geral e teórico sobre a realidade política do país, tenho a experiência de quem lá esteve. Pouco tempo, verdade, e num contexto pouco cultural mas o suficiente para sentir o ambiente.
Março de 2002, 5.º ano da faculdade, viagem de finalistas, passagem breve por Havana antes do destino final: Varadero e sua famosa paisagem.
Brindámos com Daiquiris de morango no glamoroso Floridita, admirámos as paredes de memórias escritas da Bodeguita del Medio, observámos a arte de fazer os tão cobiçados charutos, subimos a imponente escadaria do Capitólio, fotografámos a Praça da Revolução… Mas não foi nada disto que me deixou maior impressão.
Liberdade? Num país onde se vive com medo e sob permanente vigilância? Onde adultos veem luxo em produtos de higiene básicos para nós, crianças vibram por conseguir umas esferográficas azuis e nem uns nem outros estão autorizados a receber nada disto de presente? Liberdade ou repressão?
Nunca me senti tão segura numa rua à noite como em Havana… Há polícia em todo o lado e não é para nos proteger a nós, turistas… É sobretudo para os controlar a eles, aos cidadãos ditos livres.
Passeei por uma cidade feita de maravilhosos exemplares de edifícios arquitetónicos, melancolicamente a cair aos bocados e inacreditavelmente habitados… Atravessada por estradas onde circulam alguns belos e antigos carros e se improvisam autocarros… Povoada por famílias enfiadas em escassos metros quadrados…
A experiência mais esclarecedora foi a que vivi, com umas amigas, depois de sumidamente abordada numa feira de rua por uma jovem mulher. Se quisesse fazer trancinhas no cabelo, que a seguisse secretamente como se continuasse a passear, sem nunca com ela falar… Fomos… Fizemos as ditas trancinhas numa casa do tamanho do meu hall de entrada, onde viviam mais pessoas do que na minha, onde o único luxo era uma minúscula televisão, onde tudo era uma só divisão…
Nunca me senti tão clandestina e tão cúmplice da adversidade alheia. Se fosse apanhada, seria presa, confessou-nos… O valor das tranças, feitas em minutos por aquelas mãos (pela prática ou pelo receio) aceleradas, era irrisório para mim mas significaria sei lá quanto no dia de quem vivia naquelas paredes descascadas…
Não vivi a população de forma mais profunda do que isto mas fiquei com a profunda convicção de que só poderá falar sobre Fidel e as reais consequências da sua liderança quem verdadeiramente viveu sob as mesmas, diariamente, naquele país. Isto se, de facto, puder… 
...Haja esperança.


Sofia Cardoso
26 de novembro de 2016