quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Até quando?

Que direito tem uma só pessoa de perturbar a vida de tantas outras?
De livremente espezinhar a liberdade dos outros?
De pintar os dias como lhe apetece, com tintas alheias, esborratando tudo em volta?
De acreditar numa existência pretensamente superior e diminuir todos em redor?
De invocar legitimidade para tudo, negando qualquer tipo de responsabilidade? 
De procurar o caminho mais fácil, abrindo buracos para quem vem a seguir?
De propagandear tranquilidade e espalhar ansiedade?
De se orgulhar do seu valor pessoal humilhando tudo quanto são Valores universais?
De repousar sobre a exaustão de quem não tem descanso?
De atravessar o traço contínuo que separa dois percursos em sentidos contrários...

Qual terrorista ao volante de um veículo desgovernado...?
...Abalroará alguém ou será abalroado?


Sofia Cardoso
01 de novembro de 2017

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Saudade

Pensa em ti
(Muito…)
Todos os dias.
E todos os dias
(Muitas vezes)
Se pergunta porquê.
Teimosia,
Desejo,
Sonho,
Idealização,
Ousadia…
Finge não pensar.
De nada lhe serve.
Nem fingir,
Nem pensar.
Há qualquer coisa,
Sente que há,
Inexplicável,
Incontrolável,
Impossível
De ignorar.
Mas o quê
E para quê,
Se não te ouve,
Nem vê,
Sequer te lê
Ou te pode abraçar.
E como lamenta…
Porque a saudade,
Entendida ou não,
Partilhada ou solitária,
É real, atormenta,
Dói estupidamente.
Esquece!
Grita-lhe,
Autoritária,
A razão.
Não consigo…
Murmura-lhe,
Humildemente,
O coração.


Sofia Cardoso
30 de outubro de 2017

domingo, 22 de outubro de 2017

Sou eu...

Sou eu…
Aquele que faz parte de ti desde o início, que te conhece de dentro para fora, que te lê o coração e o traduz por ação ou omissão.
Por cá continuo, porque sei que não vives um dia sem mim, simplesmente porque não consegues e sorte, tens tu, de seres assim.
Só que há muito que não sou o mesmo, ainda que aos olhos dos outros não pareça, tu sabes bem porquê e eu não te tiro a razão, mas tenho saudades de espelhar a tua alma com a alegria de quem vive por paixão.
É muito fácil deixar-me ser visto em qualquer circunstância, mesmo que timidamente, só porque sou quase automático em ti e, na realidade, nunca me senti perdido. Mas o meu verdadeiro brilho anda desaparecido.
Não duvides de que tens sido uma corajosa. Já eu, não sei se estou mais para arma secreta ou para escudo protetor, nas batalhas que tens enfrentado.
Não quero cobrar-te o que de ti não depende. Só quero que saibas que não desisti. Porque sei que vai chegar o dia em que voltarei a brilhar, de felicidade genuína, rasgado.
Até lá, só te peço que não deixes de acreditar que cada dia que passar é menos um desta contagem que já cansa mas não te esgota e que me continues a levar contigo, para onde fores, aconteça o que acontecer.
Lembra-te, sou aquele que faz parte de ti desde o início e para sempre o caminho mais bonito para chegares aos outros neste mundo sem juízo.
Sou eu…
…O teu sorriso.



Sofia Cardoso
22 de outubro de 2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Subconsciente

O nosso subconsciente é tramado...
Adormeci na firme convicção de ter posto um ponto final em delírios solitários do coração e tive um sonho cuja intensidade só pedia pontos de exclamação, daqueles que põe fim a frases que não exprimem propriamente espanto mas verdadeira emoção, com um toque de surpresa ou mesmo de medo, no melhor e mais arrebatador dos sentidos.
Arrebatador... Sim, é isso mesmo. Não sei de onde veio esta avalanche de imagens de acelerar a respiração, que ganhou vida sequencial no meu cérebro enquanto dormia, de forma a fazer-me acordar com a sensação de ter corrido a maratona contigo.
C'um caraças! Tantas vezes que sonho e só acordo com sombras do que vivi que se desvanecem sem ter sequer tempo de as questionar e hoje até os mais ínfimos pormenores ficaram gravados...! [Suspiro]
Sábado, seis da manhã, podia e devia estar tranquilamente a descansar mas escrevo... De novo (ou ainda) a pensar estupidamente em ti, sem saber o que fazer ao sonho que não posso propriamente descrever aqui.
Basicamente, vieste fazer amor comigo esta noite e não sabes, o que será, no mínimo, desconcertante. E o pior desta treta toda é que, assim que abri os olhos, obviamente já não estavas, não estás e não estarás.
Entretanto, são quase sete da manhã, e antes de voltar a fechar os olhos, pergunto-me apenas onde andarás...
[Para além de no meu pensamento que não entende este tipo raro de sentimento]


Sofia Cardoso
14 de outubro de 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Restart

Sejamos crescidinhos e falemos de orgulho ou da desnecessidade dele nas nossas (tão curtas) vidas…
Nunca fui de tomar as dores alheias. Mesmo sem deixar de proteger os meus, não costumo tirar partidos afetando as minhas próprias relações.
Em regra, consigo estar entre trincheiras quando a guerra não é minha. A exceção dá-se quando sou atingida no meio dela, intencionalmente, mesmo que só ferida de raspão.
Aí, defendo-me como consigo e normalmente, como não gosto de confrontos, bato em retirada, magoada ou mesmo zangada, não como forma cobarde de fuga mas como meio de proteção.  
Não sou rancorosa. De resto, quando as situações nem graves são ou os envolvidos não são pessoas decisivas na minha vida, quase esqueço a causa do desentendimento, o que não implica necessariamente tréguas ou reconciliação imediata.
Tudo tem o seu tempo e podíamos até nunca mais ter-nos cruzado novamente mas cruzámos e, lá está, porque não sou orgulhosa nem casmurra, dado o profissionalismo (e o respeito pelo mesmo) do contexto que nos recolocou frente a frente, tudo acabou naturalmente por ter, do zero, recomeçado.
As guerras são todas inúteis, sejam quais forem as causas e respetivos argumentos mas da mesma forma como cada um é livre de as travar consigo mesmo e/ou com os outros, é igualmente livre de, a todo o momento, lhes por fim.
Acontece que esta não era minha sequer, terminou há muito e hoje cada um dos lados venceu e é feliz como quis, pelo que, quanto a mim, bandeira branca oficialmente levantada, não só mas também (e de novo) só porque sim.

  




Sofia Cardoso
03 de outubro de 2017

sábado, 29 de julho de 2017

Retrospetiva

As emoções nem sempre são boas conselheiras. Roubam-nos, muitas vezes, o discernimento. Só porque, mesmo sem querer, caímos na asneira de não parar para as gozar, sem questionar, sem exigir, sem nada esperar...
É preciso algum distanciamento para, olhando os momentos em retrospetiva, refletirmos e nos darmos conta disso.
Por mais louvável, porque genuína, que seja a sensibilidade, ela não devia deixar-se atropelar pela impulsividade, por mais que esta teime em pisar o risco da velocidade.
Sentir a vida à flor da pele, no pressuposto de que esta pode acabar amanhã, é um erro sobejamente repetido. Devíamos esforçar-nos por aproveitar o agora, tão-só, sem receios, expectativas ou anseios.
O tempo é precioso e impiedoso, sim, mas é precisamente por isso que tem que ser respeitado, saboreado e não apressado.
Sentir e saber expressar, sem receios, o que se sente será sempre uma qualidade maior desde que não se descure a capacidade de ponderar, de saber esperar, de ter noção de que há "timings" para tudo, em respeito por nós e pelos outros, porque nisto das emoções raramente estamos sós.
Não basta saber escolher um bom vinho e abrir a garrafa. É preciso deixá-lo respirar para o podermos provar. Sem sede que nos seque o momento. Só pelo prazer de o degustar...


Sofia Cardoso
29 de julho de 2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Em segredo...

Inadvertidamente guiada até um compartimento frio e sombrio, viu a porta fechar-se atrás de si, trancar-se, aprisionando-a ao desalento.
Ali ficou, tempo demais, se não resignada, calada, cansada, desligada, quase congelada...
Até ouvir, do outro lado, a tua voz, familiar, forte, diferente, segura, meiga, num tom convincente.
Que, furtiva e inesperadamente, percorreu a fechadura, despertando-a, aquecendo-a lentamente, fazendo-a acreditar novamente.
Ouviu, respondeu, quis soltar-se para ir ao teu encontro, sem porquês nem senãos, só guiada por aquela estranha mas arrebatadora emoção. (Se verdadeira, porque não?)
Apercebeu-se, então, que não tinha a chave para se libertar e aos poucos começou a gritar, revelando sem querer a vontade de se salvar.
Não era tarde, ainda podia tentar e esperou ansiosamente que a viesses destrancar.
Porque o segredo és tu (e até aqui só tu) que o tens.
Não sabes como, nem ela o desejou. 
Pensa: a vida deu-te a chave para quê? Abre os olhos, vê!
Um sentimento sem definição (ou não...) que reconhece - mas que julgava perdido - assim desvendado e que, não interessa porquê, tudo mudou.
O medo do que haverá do outro lado existe, sim, porque nada é garantido mas precisamos mesmo de ter tudo controlado? 
Não te fiques pelo agora se o amanhã puder ser demorado.
Pode não ser já, porque o que é genuíno deve ser saboreado mas...
...A sério que sabendo-a ali vais deixá-la ficar em vez de a resgatares para a teres contigo? 


Sofia Cardoso
26 de junho de 2017

sábado, 24 de junho de 2017

Força

Já me perguntaram muitas vezes de onde vem esta capacidade de sorrir em (quase) qualquer circunstância, mesmo em face dos momentos mais difíceis.
Muito bem, vou dar-vos a pólvora. Acreditem ou não, a força do meu sorriso vem da minha capacidade de chorar.
É verdade. Penso, sinto e choro muito com os meus botões e isso é uma coisa boa. Permeabiliza o coração, liberta a alma do que a preocupa, do que entristece, do que trava… Mas não só! Também penso, sinto e choro quando enriqueço o espírito de emoções boas. Quando os meus olhos se enchem de algo que admiro muito; quando pelos meus ouvidos entra aquela melodia que me arrepia os poros todos; quando sou alvo de um gesto ou uma palavra que me toca profundamente…
Raramente me defendo da vontade de chorar porque raramente consigo, até porque acredito que a melhor defesa em relação a alguns acontecimentos inimigos que invadem a tranquilidade da nossa vida é, muitas vezes, precisamente o derrubar de muralhas. Enfrentando, deixando os sentimentos tomarem a frente de combate e fazer do escorrer das lágrimas o desarmamento de chatices com que se vão vencendo batalhas, uma após outra, porque a vida dá-nos tréguas mas a luta é até ao fim.
De sorriso no rosto, ilumino o meu próprio caminho, abrindo os braços a cada emoção com que me deparo, retendo no coração o que me fortalece e, sem vergonha ou receio, deixando que as lágrimas levem o que me enfraquece.


Sofia Cardoso
24 de junho de 2017

sábado, 27 de maio de 2017

Inspiração

Todos vivemos fortalecidos quando existe algo que nos inspira…
…Que nos faz querer ser maiores, melhores e ir mais longe.
…Que mexe com cada um dos nossos sentidos e faz sentir.
…Que nos faz querer parar o tempo e congelar momentos.
…Que consegue transformar o nosso estado de espírito.
…Que nos faz ganhar um dia que se julgava perdido.
...Que aproxima o nosso ser do estar de tantos outros.
…Que nos faz sonhar acordados e voar sem sair do lugar.
…Que projeta na nossa vida aquilo a que alguém dedica a sua.
…Que nos faz mais felizes e participar na felicidade dos outros.

Sofia Cardoso
27 de maio de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

Em construção...

Nunca dês por garantido o “felizes para sempre” ou sequer o futuro partilhado com a pessoa com quem estás… A felicidade a dois não é um dado adquirido do amor recíproco ou um mero resultado matemático de um mais um. Não te acomodes, nem te resignes! Por outras palavras, não deixes de te entregar mas também não te anules!
Cada uma das pessoas numa relação tem uma individualidade própria e prévia à mesma que precisa de ser respeitada e, sobretudo, não adulterada, e é justamente aqui que surgem as dificuldades. O sucesso de uma união exige muito mais do que adaptação ou poder de encaixe… Exige, acima de tudo, respeito e liberdade. Respeito pelo que se é por si e já se era sozinho e liberdade para o que se quer continuar a ser por si e na relação com os outros.
Acredito que seja possível dar o que temos de melhor sem abdicar do que somos de melhor mas é difícil… Porque é complexo deixamos de pensar no singular para passarmos a viver no plural e é preciso, dia após dia, aprender a conjugar cada uma das nossas ações em conjunto, sem ignorar o que nos caracteriza individualmente. Aprender, sim, porque não é um processo automático ou instantâneo. Implica observação, descoberta e compreensão, desafios que a razão coloca à paixão.
E depois há a rotina, aquele obstáculo disfarçado de sensação de que se tem tudo controlado que torna a vivência tão mecânica que deixa os sonhos de lado.
Não somos peças de um puzzle, concebidas para um único, perfeito e definitivo encaixe. Somos mais peças de Lego à procura da construção mais resistente e isso pressupõe imaginação, tempo, dedicação… Por alguma razão estas não se moldam mas também não quebram. Nunca deixam de ser o que são mas da sua união resultam milhares de possibilidades de realização.
Não sou dona da verdade ou do segredo para o sucesso e de todo sou exemplo… Tenho e partilho apenas a convicção, em experiência baseada em erros de avaliação, de cálculo, de ação ou omissão, de que, sejamos feitos de que matéria for, amando ou não, temos que ousar, criar, reinventar, admirar, respeitar, recomeçar, sonhar, lutar, diariamente, para fazer da nossa vida uma obra de arte em permanente edificação.


Sofia Cardoso
21 de maio de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Las 4 en el Caminito! =)

Um convite à aventura, num evento partilhado, seguido de rápida mobilização entre amigas de instinto viajado.
A vontade e entusiasmo inicial foram sufocados, então, por uma sensata mas péssima decisão.
A 15 dias da expedição, eis que um braço partido leva a uma desistência que acendeu a luzinha da persistência.
E assim o destino ganhou, reforçando-se o grupo que, de três, a quatro aventureiras passou.
O ponto de encontro seria em Sevilha, paragem estratégica para saborearmos umas belas tapas servidas após cada novo gritar por «MARIA!»
Após o petisco, a primeira gargalhada de grupo, ao passarmos numa esplanada onde eu oiço: «guapas, las 4!» e a Rita entende: «cerra a las 4!» (Que trapalhada…!)
Mais hora menos hora, o BUS vindo de Lisboa vem buscar-nos, para assim nos juntarmos ao grupo que nos esperava numa boa.
Era sentar onde houvesse lugar e ao último banco, no assento de frente para o corredor, com vista para a estrada, fiquei destinada.
Ao meu lado esquerdo, um amigo discreto com nome de amigo humano do ursinho Puff em versão francesa e um talento ainda não descoberto.
Ao meu lado direito e ao lado da Rita, um amigo que, a destilar, e sem o Carlos conseguir chamar, lhe queria telefonar, até que um aplauso o A/C fez ligar.
A mais nova (ainda criança) do grupo bem animado, cheia de pedalada, queria que todos à sua volta participassem nos jogos que ELA tinha inventado!
O silêncio já era e entre cores, animais, letras e categorias de um «STOP» camuflado, rapidamente chegámos a Antequera.
Subimos ao Mirador de Las Ventanillas onde, apesar da neblina cinzenta nos tapar a paisagem, me armei em Obelix numa divertida imagem.
Já no hotel e bem instaladas, uma bela refeição teve que esperar que uma crise vagal, sorrateira, testasse a capacidade de reação desta trapalhona companheira.
Umas horas de descanso depois, finalmente o dia mais aguardado, na expectativa de percorrer uns belos km para, por fim, o Caminito ver alcançado.
Um dia lindo, sob uma brisa agradável que nos refrescou a caminhada, encosta acima, com uma vista incomparável.
Um grupo incrível, feito de pessoas de décadas tão distintas, que se portou à maneira e para as vertigens se esteve nas tintas.
Almoçámos num ponto fascinante, de onde se vislumbrava o rio e ao fundo o Caminito, antevendo o que nos esperava dali adiante.
E então, finalmente, a entrada para o dito e toda uma imensa expectativa em relação à experiência tão aguardada…!
Equipados qual engenheiros, não fosse uma rocha querer soltar-se, lá iniciámos o percurso com a Graça a tentar controlar-se.
Depressa percebeu que o caminho era largo, pacífico, que poderia escolher entre caminhar do lado direito, sem olhar ao abismo terrorífico.
Já eu, a cada novo passo, sentia-me mais deslumbrada, pela altura, pelas cores, pela beleza daquela obra-prima esculpida pela natureza.
Chegados à ponte, o maior desafio, os quadradinhos abertos sob os nossos pés indicavam-nos claramente o quão abaixo estava o rio.
Aí, a adrenalina imperou porque a sensação é a de se estar meio suspenso, caminhando a par do vento que não amainou.
Daí até ao fim, foi gozar a paisagem, querendo captar e registar tudo, olhando para trás e percebendo que a coisa, afinal, não exigia assim tanta coragem.  
Chegados, ainda assim cansados, ao Hotel La Garganta, pausa para uma bebida refrescante, aperitivo de um jantar com uma vista deslumbrante.
Mais uma noite tranquila, seguida de um belo passeio à carismática cidade de Ronda, explorada por nossa conta, a passo de corrida.
Só faltava a prova de vinhos, após curva contra curva, esquecida pelo sabor devidamente aprovado e pelo jogo animado.
Pois não é que o meu pacato vizinho de autocarro escondia um talento inimaginável, que implicava um simples pudinzinho?!
Diz quem viu que, qual monstro dos flãs, sugou (literalmente) um exemplar num golpe de segundos, perante o riso geral de quem mal pestanejou.
Foi, de facto, uma aventura muito bem cozinhada, digo, organizada, onde não sei se o que mais repeti foi o UAU fascinado ou a gargalhada entusiasmada. 


Sofia Cardoso
14 de maio de 2017

sábado, 25 de março de 2017

Reset

Enlouquece, recapitular
Uma história indefinidamente.
Esquece, deixa descansar
Memórias guardadas inadvertidamente.
Aborrece, colecionar
“E se(s)” eternamente.
Enriquece, questionar
Apenas o presente.
Permanece disponível para abraçar
Um amanhã diferente.
Aquece o coração devagar
E aguarda pacientemente.
Desvanece o que te atrasar,
Acredita novamente.
Enaltece a força de mudar,
Assumindo-a corajosamente.
Merece o que a vida te reservar
E vai sempre em frente.
Agradece, o que está por chegar,
E abraça-o demoradamente.





Sofia Cardoso
25 de março de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Quem espera...

Sala de espera do dentista.
À minha direita, uma senhora rói as unhas. (Sintomático).
À minha esquerda, uma rapariga distrai-se com um qualquer jogo de cartas no telemóvel.
À minha frente, o balcão da rececionista onde acaba de chegar um pai com uma criança que vem de telemóvel numa mão e de livro na outra.
Ao fundo, duas ou três vozes que trocam ideias na típica pronúncia da cidade algarvia em que me encontro.
Ao longe, a voz do doutor, cujo rosto ainda não conheço, que se ocupa de quem inevitavelmente permanece em silêncio, alheio ao que se passa aqui fora, a quem espera.
O telemóvel da dita criança estaciona na cadeira ao meu lado para ser ligado à tomada mais próxima. Com ele, o livro do pai da criança que aproveitou para ir ao WC e que, ao regressar, destrona o aparelho, colocando-o no chão, e abre o livro na primeira página. Não consegui ler o título ou reconhecer a capa mas é de Domingos Amaral e tem um número de páginas considerável.
Lembro-me que também vim de livro atrás, como sempre e para todo o lado onde sei que vou ter que esperar, só que mantenho-o na mala porque ainda não tenho a capacidade de ler e escrever ao mesmo tempo.
Entretanto, a senhora que continua à minha direita e que daqui a pouco não tem unhas (era melhor ter trazido também um livro…), olha-me de soslaio como que questionando o que tanto escrevo e começo a ter verdadeiramente dó daqueles dedos.
Reparo na televisão ligada, inacreditavelmente, na SIC Notícias e não na TVI como é típico das salas de espera, cafés e afins (ponto para este consultório). Em silêncio, António Costa fala para o boneco.
Nisto, o leitor ao meu lado já vai na página 17 e a jovem que jogava no telemóvel é chamada.
Para além dos que ainda conversam, da que rói as unhas e dos que leem, duas alminhas estoicas esperam, simplesmente, sem com nada se entreter.
Trégua no massacre das unhas ao meu lado. A senhora cruzou os braços.
Agora, Jorge Jesus na televisão que fala gesticulando, como se estivesse a fazer “musicallys” (ainda bem que o som continua desligado…)
O rapazinho que trocara o telemóvel pelo livro revela-se entusiasmado com a leitura. Vai fazendo exclamações como se tivesse vidrado num jogo de computador (ponto para a educação que está a receber).
Entra um novo candidato a esperar e senta-se. Perna cruzada e sem qualquer distração ou objeto na mão.
Sai um paciente, entra outra. Isto ao sábado não parece ser demorado.
Eis que entra na sala um rosto conhecido que não me reconhece e deixo-me ficar incógnita. A senhora também está mais preocupada com a emergência que a fez procurar um dentista disponível ao sábado pelo Algarve inteiro do que com quem está à sua frente e por isso acredito que nem me viu. Sem problema. Não teríamos mesmo muito para dizer uma à outra.
Ao meu lado, a leitura vai na página 29 quando é interrompida pelo filho que quer mostrar qualquer coisa no seu livro.
Na televisão, imagens de Óbidos, terra de memórias da minha infância e coração. A viagem que o meu cérebro começa a fazer pelos caminhos empedrados desta maravilhosa vila é interrompida pelo som de um daqueles instrumentos barulhentos dos dentistas que rapidamente me situa no espaço e no tempo.
Tenho cá uma vontade de estar aqui…! [Suspiro]
Pela primeira vez desde que aqui cheguei, toca um telemóvel. Som irritante, interrompido num instante.
Um dos dois estoicos que ainda aguarda a sua vez mantém-se a olhar o vazio, de perna cruzada e mãos em repouso (ponto para a sua paciência).
Entra alguém familiar de uma das assistentes do doutor. Como a porta do gabinete está aberta, enceta-se (e ouve-se) a conversa. O jovem diz estar admirado com o movimento no centro da cidade e exclama: «há mais gente aqui ao sábado do que no Porto ou em Lisboa!» [Deve ser...] Penso eu com a ironia e suspeição de quem não atinge estas comparações de alhos com bugalhos.
Chamam o estoico e a sala vai ficando mais vazia. Felizmente, porque já me doem as costas.
Lá fora, ouve-se o sino da igreja. Meio-dia. Lembro-me do que me trouxe: meio-dente…
O pai leitor avança para a página 40, a senhora das unhas esfrega as mãos e o António Costa reaparece na televisão. No rodapé: «Benfica vence Chaves por 3-1». Então e agora a culpa é de quem?
Sai o estoico, acho que com menos um dente, e entra a aniquiladora de unhas. (Pausa no vício). Não demora, eu sou a próxima. Enfim o meu nome. Fui.

(Mas deixo-vos uma sala de espera mais divertida...) 


Sofia Cardoso
25 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Vem...

Se há gestos que dispensam palavras, também há palavras que representam bonitos gestos… Ambos aproximam as pessoas, constroem pontes que, atravessadas, estabelecem uma relação.
Esta última semana e meia foi rica em pequenas manifestações de atenção que me levaram da surpresa à comoção.
Todas bem distintas mas sinais de quem, por qualquer motivo particular, se lembrou de mim, nuns casos mesmo estando longe e noutro, aqui bem perto, abrindo caminho para a minha presença ou puxando-me diretamente para junto de si.
A simples lembrança, somada depois à simpatia do gesto da procura, em qualquer uma das situações traduzido e resumido pela palavra “vem”. Obviamente que quem me quer presente ou por perto, me quer bem… E que privilégio é fazer parte da lembrança de alguém... Significa que não vivo para o meu reflexo no espelho e existo muito mais além.
De facto, quando nos encontramos no pensamento dos outros, temos a certeza de que não andamos perdidos, e muito menos sozinhos, neste mundo que é de todos e não pertence a ninguém.


Sofia Cardoso
12 de fevereiro de 2017

sábado, 28 de janeiro de 2017

Outro olhar

A facilidade em estar perto do mar,
O nascer do sol visível do primeiro andar.
A beleza das amendoeiras em flor,
O imenso céu azul e o calor.
A riqueza do peixe fresquinho,
E o marisco a abrir caminho.
A tranquilidade e o ar puro,
A sensação de viver seguro.
O chilrear dos pássaros ao acordar,
A lua cheia, o oceano a iluminar.
O mágico arco-íris, tão frequente,
O céu estrelado de presente.
As dunas a venerar a serra,
As gaivotas no mar ou em terra.
Os gelados caseiros no verão,
O pôr-do-sol sempre sensação.
As cegonhas nos seus ninhos,
As aparições fugazes de golfinhos.
As praias de falésias ou as ilhas,
E as suas respetivas maravilhas.
A Ria Formosa e a sua biodiversidade,
O Algarve sob o olhar da simplicidade.











Sofia Cardoso
28 de janeiro de 2017