sábado, 25 de março de 2017

Reset

Enlouquece, recapitular
Uma história indefinidamente.
Esquece, deixa descansar
Memórias guardadas inadvertidamente.
Aborrece, colecionar
“E se(s)” eternamente.
Enriquece, questionar
Apenas o presente.
Permanece disponível para abraçar
Um amanhã diferente.
Aquece o coração devagar
E aguarda pacientemente.
Desvanece o que te atrasar,
Acredita novamente.
Enaltece a força de mudar,
Assumindo-a corajosamente.
Merece o que a vida te reservar
E vai sempre em frente.
Agradece, o que está por chegar,
E abraça-o demoradamente.





Sofia Cardoso
25 de março de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Quem espera...

Sala de espera do dentista.
À minha direita, uma senhora rói as unhas. (Sintomático).
À minha esquerda, uma rapariga distrai-se com um qualquer jogo de cartas no telemóvel.
À minha frente, o balcão da rececionista onde acaba de chegar um pai com uma criança que vem de telemóvel numa mão e de livro na outra.
Ao fundo, duas ou três vozes que trocam ideias na típica pronúncia da cidade algarvia em que me encontro.
Ao longe, a voz do doutor, cujo rosto ainda não conheço, que se ocupa de quem inevitavelmente permanece em silêncio, alheio ao que se passa aqui fora, a quem espera.
O telemóvel da dita criança estaciona na cadeira ao meu lado para ser ligado à tomada mais próxima. Com ele, o livro do pai da criança que aproveitou para ir ao WC e que, ao regressar, destrona o aparelho, colocando-o no chão, e abre o livro na primeira página. Não consegui ler o título ou reconhecer a capa mas é de Domingos Amaral e tem um número de páginas considerável.
Lembro-me que também vim de livro atrás, como sempre e para todo o lado onde sei que vou ter que esperar, só que mantenho-o na mala porque ainda não tenho a capacidade de ler e escrever ao mesmo tempo.
Entretanto, a senhora que continua à minha direita e que daqui a pouco não tem unhas (era melhor ter trazido também um livro…), olha-me de soslaio como que questionando o que tanto escrevo e começo a ter verdadeiramente dó daqueles dedos.
Reparo na televisão ligada, inacreditavelmente, na SIC Notícias e não na TVI como é típico das salas de espera, cafés e afins (ponto para este consultório). Em silêncio, António Costa fala para o boneco.
Nisto, o leitor ao meu lado já vai na página 17 e a jovem que jogava no telemóvel é chamada.
Para além dos que ainda conversam, da que rói as unhas e dos que leem, duas alminhas estoicas esperam, simplesmente, sem com nada se entreter.
Trégua no massacre das unhas ao meu lado. A senhora cruzou os braços.
Agora, Jorge Jesus na televisão que fala gesticulando, como se estivesse a fazer “musicallys” (ainda bem que o som continua desligado…)
O rapazinho que trocara o telemóvel pelo livro revela-se entusiasmado com a leitura. Vai fazendo exclamações como se tivesse vidrado num jogo de computador (ponto para a educação que está a receber).
Entra um novo candidato a esperar e senta-se. Perna cruzada e sem qualquer distração ou objeto na mão.
Sai um paciente, entra outra. Isto ao sábado não parece ser demorado.
Eis que entra na sala um rosto conhecido que não me reconhece e deixo-me ficar incógnita. A senhora também está mais preocupada com a emergência que a fez procurar um dentista disponível ao sábado pelo Algarve inteiro do que com quem está à sua frente e por isso acredito que nem me viu. Sem problema. Não teríamos mesmo muito para dizer uma à outra.
Ao meu lado, a leitura vai na página 29 quando é interrompida pelo filho que quer mostrar qualquer coisa no seu livro.
Na televisão, imagens de Óbidos, terra de memórias da minha infância e coração. A viagem que o meu cérebro começa a fazer pelos caminhos empedrados desta maravilhosa vila é interrompida pelo som de um daqueles instrumentos barulhentos dos dentistas que rapidamente me situa no espaço e no tempo.
Tenho cá uma vontade de estar aqui…! [Suspiro]
Pela primeira vez desde que aqui cheguei, toca um telemóvel. Som irritante, interrompido num instante.
Um dos dois estoicos que ainda aguarda a sua vez mantém-se a olhar o vazio, de perna cruzada e mãos em repouso (ponto para a sua paciência).
Entra alguém familiar de uma das assistentes do doutor. Como a porta do gabinete está aberta, enceta-se (e ouve-se) a conversa. O jovem diz estar admirado com o movimento no centro da cidade e exclama: «há mais gente aqui ao sábado do que no Porto ou em Lisboa!» [Deve ser...] Penso eu com a ironia e suspeição de quem não atinge estas comparações de alhos com bugalhos.
Chamam o estoico e a sala vai ficando mais vazia. Felizmente, porque já me doem as costas.
Lá fora, ouve-se o sino da igreja. Meio-dia. Lembro-me do que me trouxe: meio-dente…
O pai leitor avança para a página 40, a senhora das unhas esfrega as mãos e o António Costa reaparece na televisão. No rodapé: «Benfica vence Chaves por 3-1». Então e agora a culpa é de quem?
Sai o estoico, acho que com menos um dente, e entra a aniquiladora de unhas. (Pausa no vício). Não demora, eu sou a próxima. Enfim o meu nome. Fui.

(Mas deixo-vos uma sala de espera mais divertida...) 


Sofia Cardoso
25 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Vem...

Se há gestos que dispensam palavras, também há palavras que representam bonitos gestos… Ambos aproximam as pessoas, constroem pontes que, atravessadas, estabelecem uma relação.
Esta última semana e meia foi rica em pequenas manifestações de atenção que me levaram da surpresa à comoção.
Todas bem distintas mas sinais de quem, por qualquer motivo particular, se lembrou de mim, nuns casos mesmo estando longe e noutro, aqui bem perto, abrindo caminho para a minha presença ou puxando-me diretamente para junto de si.
A simples lembrança, somada depois à simpatia do gesto da procura, em qualquer uma das situações traduzido e resumido pela palavra “vem”. Obviamente que quem me quer presente ou por perto, me quer bem… E que privilégio é fazer parte da lembrança de alguém... Significa que não vivo para o meu reflexo no espelho e existo muito mais além.
De facto, quando nos encontramos no pensamento dos outros, temos a certeza de que não andamos perdidos, e muito menos sozinhos, neste mundo que é de todos e não pertence a ninguém.


Sofia Cardoso
12 de fevereiro de 2017

sábado, 28 de janeiro de 2017

Outro olhar

A facilidade em estar perto do mar,
O nascer do sol visível do primeiro andar.
A beleza das amendoeiras em flor,
O imenso céu azul e o calor.
A riqueza do peixe fresquinho,
E o marisco a abrir caminho.
A tranquilidade e o ar puro,
A sensação de viver seguro.
O chilrear dos pássaros ao acordar,
A lua cheia, o oceano a iluminar.
O mágico arco-íris, tão frequente,
O céu estrelado de presente.
As dunas a venerar a serra,
As gaivotas no mar ou em terra.
Os gelados caseiros no verão,
O pôr-do-sol sempre sensação.
As cegonhas nos seus ninhos,
As aparições fugazes de golfinhos.
As praias de falésias ou as ilhas,
E as suas respetivas maravilhas.
A Ria Formosa e a sua biodiversidade,
O Algarve sob o olhar da simplicidade.











Sofia Cardoso
28 de janeiro de 2017

domingo, 8 de janeiro de 2017

Old Story

Recuo quase duas décadas até ti, parecendo-me quase impossível que tenham passado estes anos todos desta recordação incontornável…
Lembro-me muito mais de sentimentos do que de factos ou momentos e a sensação que persiste é sempre tão agradável…
De todas as pequenas (sempre grandes) paixões que vivi, esta foi sem dúvida a que maior sintonia revelou e a que mais me surpreendeu e realizou porque foi tudo inesperadamente tão bem gozado…
Não te procurei, encontraste-me, ou encontrámo-nos, num caminho com pouco em comum. O essencial, na altura. E nunca uma atração foi tão bem correspondida, porque mutuamente quase imediata, sem que tivesse sido preciso ponderar antes ou questionar depois.
Só lamento não me lembrar dos pormenores, aqueles pequenos nadas que revelam a outra parte de tudo o que realmente foi. O primeiro beijo que me deste, por exemplo, esfumou-se… Mas não a primeira vez que me abraçaste porque foi aí que tudo começou. Naquele instante, o tempo parou. Daí em diante, infelizmente, voou…
Foram dias vividos de coração cheio, de espírito leve, de sorriso brilhante.
Na verdade, toda eu andava radiante…! Tudo parecia tão mais colorido aos meus olhos transparentes de emoção.
Não foi um bonito e longo amor. Foi uma linda e efémera paixão que sucumbiu sob a força de uma ilusão.
Não recordo exatamente quanto tempo durou, nem interessa pois, o bem que me fez, foi o que ficou. E acabou tão repentinamente como começou. Só porque sim ou porque não estava destinado que seguisse adiante ou simplesmente porque havia algo a mais de que não te soubeste libertar. Azar o teu ou o meu e sorte de ambos pela oportunidade irremediavelmente fascinante.
Quando, onde e em que circunstâncias nos vimos ao vivo e a cores pela última vez? Também não me lembro. Só sei que ainda me vens à memória aqui e ali. Por isso, inegavelmente, escrevo sobre ti.
Porquê agora? Também ainda não percebi… Talvez apenas saudades de um tempo que não esqueci. 


    Sofia Cardoso
08 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Uma questão de honra...

A sociedade do “eu-quero-posso-e-mando” está a encher egos e a vazar consciências…
O egocentrismo não está a abrir mentes. Está a fechar corações. A enclausurar valores…
Noutros tempos, quando se assumia um compromisso, fosse de que natureza fosse, levava-se o mesmo até ao fim porque se conhecia bem o significado da palavra HONRA. Experimentem perguntar ao jovem mais perto se vos sabe explicar o conceito. [Pois é…]  
Resumindo as suas múltiplas definições, basicamente, refere-se ao “sentimento do dever, da dignidade e da justiça.” Dignidade, respeitabilidade…
O respeito por um compromisso assumido não deve ser posto em causa por dá cá aquela palha. Existem pessoas, projetos, trabalho desenvolvido, relações, sentimentos, direitos e obrigações sob os comprometimentos, sejam eles pessoais, profissionais, escolares, familiares, bilaterais ou universais. 
É preciso que a educação não ceda à vulnerabilidade das vontades, para não dizer caprichos, de quem ainda está a crescer e a aprender ser, sob pena de um dia não se saber comprometer. E o comprometimento, a responsabilidade, são essenciais à relação com o outro em sociedade.  
Haverá poucos compromissos vitalícios (exceção feita aos casamentos ou relacionamentos familiares ditos perfeitos), nem os defendo cegamente. Preocupam-me sobretudo os compromissos a prazo que quando quebrados negligentemente ferem legítimas expectativas de alguém, atropelando o que está certo para chegar mais rápido à satisfação de um desejo com gozo direto.
A vida dá as suas voltas e sempre me agradou a ideia de mudança. Só não sou conivente com a falta de respeito que possa estar subjacente. Portanto, tudo a seu tempo e honradamente.




Sofia Cardoso
05 de janeiro de 2017