domingo, 21 de maio de 2017

Em construção...

Nunca dês por garantido o “felizes para sempre” ou sequer o futuro partilhado com a pessoa com quem estás… A felicidade a dois não é um dado adquirido do amor recíproco ou um mero resultado matemático de um mais um. Não te acomodes, nem te resignes! Por outras palavras, não deixes de te entregar mas também não te anules!
Cada uma das pessoas numa relação tem uma individualidade própria e prévia à mesma que precisa de ser respeitada e, sobretudo, não adulterada, e é justamente aqui que surgem as dificuldades. O sucesso de uma união exige muito mais do que adaptação ou poder de encaixe… Exige, acima de tudo, respeito e liberdade. Respeito pelo que se é por si e já se era sozinho e liberdade para o que se quer continuar a ser por si e na relação com os outros.
Acredito que seja possível dar o que temos de melhor sem abdicar do que somos de melhor mas é difícil… Porque é complexo deixamos de pensar no singular para passarmos a viver no plural e é preciso, dia após dia, aprender a conjugar cada uma das nossas ações em conjunto, sem ignorar o que nos caracteriza individualmente. Aprender, sim, porque não é um processo automático ou instantâneo. Implica observação, descoberta e compreensão, desafios que a razão coloca à paixão.
E depois há a rotina, aquele obstáculo disfarçado de sensação de que se tem tudo controlado que torna a vivência tão mecânica que deixa os sonhos de lado.
Não somos peças de um puzzle, concebidas para um único, perfeito e definitivo encaixe. Somos mais peças de Lego à procura da construção mais resistente e isso pressupõe imaginação, tempo, dedicação… Por alguma razão estas não se moldam mas também não quebram. Nunca deixam de ser o que são mas da sua união resultam milhares de possibilidades de realização.
Não sou dona da verdade ou do segredo para o sucesso e de todo sou exemplo… Tenho e partilho apenas a convicção, em experiência baseada em erros de avaliação, de cálculo, de ação ou omissão, de que, sejamos feitos de que matéria for, amando ou não, temos que ousar, criar, reinventar, admirar, respeitar, recomeçar, sonhar, lutar, diariamente, para fazer da nossa vida uma obra de arte em permanente edificação.


Sofia Cardoso
21 de maio de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Las 4 en el Caminito! =)

Um convite à aventura, num evento partilhado, seguido de rápida mobilização entre amigas de instinto viajado.
A vontade e entusiasmo inicial foram sufocados, então, por uma sensata mas péssima decisão.
A 15 dias da expedição, eis que um braço partido leva a uma desistência que acendeu a luzinha da persistência.
E assim o destino ganhou, reforçando-se o grupo que, de três, a quatro aventureiras passou.
O ponto de encontro seria em Sevilha, paragem estratégica para saborearmos umas belas tapas servidas após cada novo gritar por «MARIA!»
Após o petisco, a primeira gargalhada de grupo, ao passarmos numa esplanada onde eu oiço: «guapas, las 4!» e a Rita entende: «cerra a las 4!» (Que trapalhada…!)
Mais hora menos hora, o BUS vindo de Lisboa vem buscar-nos, para assim nos juntarmos ao grupo que nos esperava numa boa.
Era sentar onde houvesse lugar e ao último banco, no assento de frente para o corredor, com vista para a estrada, fiquei destinada.
Ao meu lado esquerdo, um amigo discreto com nome de amigo humano do ursinho Puff em versão francesa e um talento ainda não descoberto.
Ao meu lado direito e ao lado da Rita, um amigo que, a destilar, e sem o Carlos conseguir chamar, lhe queria telefonar, até que um aplauso o A/C fez ligar.
A mais nova (ainda criança) do grupo bem animado, cheia de pedalada, queria que todos à sua volta participassem nos jogos que ELA tinha inventado!
O silêncio já era e entre cores, animais, letras e categorias de um «STOP» camuflado, rapidamente chegámos a Antequera.
Subimos ao Mirador de Las Ventanillas onde, apesar da neblina cinzenta nos tapar a paisagem, me armei em Obelix numa divertida imagem.
Já no hotel e bem instaladas, uma bela refeição teve que esperar que uma crise vagal, sorrateira, testasse a capacidade de reação desta trapalhona companheira.
Umas horas de descanso depois, finalmente o dia mais aguardado, na expectativa de percorrer uns belos km para, por fim, o Caminito ver alcançado.
Um dia lindo, sob uma brisa agradável que nos refrescou a caminhada, encosta acima, com uma vista incomparável.
Um grupo incrível, feito de pessoas de décadas tão distintas, que se portou à maneira e para as vertigens se esteve nas tintas.
Almoçámos num ponto fascinante, de onde se vislumbrava o rio e ao fundo o Caminito, antevendo o que nos esperava dali adiante.
E então, finalmente, a entrada para o dito e toda uma imensa expectativa em relação à experiência tão aguardada…!
Equipados qual engenheiros, não fosse uma rocha querer soltar-se, lá iniciámos o percurso com a Graça a tentar controlar-se.
Depressa percebeu que o caminho era largo, pacífico, que poderia escolher entre caminhar do lado direito, sem olhar ao abismo terrorífico.
Já eu, a cada novo passo, sentia-me mais deslumbrada, pela altura, pelas cores, pela beleza daquela obra-prima esculpida pela natureza.
Chegados à ponte, o maior desafio, os quadradinhos abertos sob os nossos pés indicavam-nos claramente o quão abaixo estava o rio.
Aí, a adrenalina imperou porque a sensação é a de se estar meio suspenso, caminhando a par do vento que não amainou.
Daí até ao fim, foi gozar a paisagem, querendo captar e registar tudo, olhando para trás e percebendo que a coisa, afinal, não exigia assim tanta coragem.  
Chegados, ainda assim cansados, ao Hotel La Garganta, pausa para uma bebida refrescante, aperitivo de um jantar com uma vista deslumbrante.
Mais uma noite tranquila, seguida de um belo passeio à carismática cidade de Ronda, explorada por nossa conta, a passo de corrida.
Só faltava a prova de vinhos, após curva contra curva, esquecida pelo sabor devidamente aprovado e pelo jogo animado.
Pois não é que o meu pacato vizinho de autocarro escondia um talento inimaginável, que implicava um simples pudinzinho?!
Diz quem viu que, qual monstro dos flãs, sugou (literalmente) um exemplar num golpe de segundos, perante o riso geral de quem mal pestanejou.
Foi, de facto, uma aventura muito bem cozinhada, digo, organizada, onde não sei se o que mais repeti foi o UAU fascinado ou a gargalhada entusiasmada. 


Sofia Cardoso
14 de maio de 2017