sábado, 29 de julho de 2017

Retrospetiva

As emoções nem sempre são boas conselheiras. Roubam-nos, muitas vezes, o discernimento. Só porque, mesmo sem querer, caímos na asneira de não parar para as gozar, sem questionar, sem exigir, sem nada esperar...
É preciso algum distanciamento para, olhando os momentos em retrospetiva, refletirmos e nos darmos conta disso.
Por mais louvável, porque genuína, que seja a sensibilidade, ela não devia deixar-se atropelar pela impulsividade, por mais que esta teime em pisar o risco da velocidade.
Sentir a vida à flor da pele, no pressuposto de que esta pode acabar amanhã, é um erro sobejamente repetido. Devíamos esforçar-nos por aproveitar o agora, tão-só, sem receios, expectativas ou anseios.
O tempo é precioso e impiedoso, sim, mas é precisamente por isso que tem que ser respeitado, saboreado e não apressado.
Sentir e saber expressar, sem receios, o que se sente será sempre uma qualidade maior desde que não se descure a capacidade de ponderar, de saber esperar, de ter noção de que há "timings" para tudo, em respeito por nós e pelos outros, porque nisto das emoções raramente estamos sós.
Não basta saber escolher um bom vinho e abrir a garrafa. É preciso deixá-lo respirar para o podermos provar. Sem sede que nos seque o momento. Só pelo prazer de o degustar...


Sofia Cardoso
29 de julho de 2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Em segredo...

Inadvertidamente guiada até um compartimento frio e sombrio, viu a porta fechar-se atrás de si, trancar-se, aprisionando-a ao desalento.
Ali ficou, tempo demais, se não resignada, calada, cansada, desligada, quase congelada...
Até ouvir, do outro lado, a tua voz, familiar, forte, diferente, segura, meiga, num tom convincente.
Que, furtiva e inesperadamente, percorreu a fechadura, despertando-a, aquecendo-a lentamente, fazendo-a acreditar novamente.
Ouviu, respondeu, quis soltar-se para ir ao teu encontro, sem porquês nem senãos, só guiada por aquela estranha mas arrebatadora emoção. (Se verdadeira, porque não?)
Apercebeu-se, então, que não tinha a chave para se libertar e aos poucos começou a gritar, revelando sem querer a vontade de se salvar.
Não era tarde, ainda podia tentar e esperou ansiosamente que a viesses destrancar.
Porque o segredo és tu (e até aqui só tu) que o tens.
Não sabes como, nem ela o desejou. 
Pensa: a vida deu-te a chave para quê? Abre os olhos, vê!
Um sentimento sem definição (ou não...) que reconhece - mas que julgava perdido - assim desvendado e que, não interessa porquê, tudo mudou.
O medo do que haverá do outro lado existe, sim, porque nada é garantido mas precisamos mesmo de ter tudo controlado? 
Não te fiques pelo agora se o amanhã puder ser demorado.
Pode não ser já, porque o que é genuíno deve ser saboreado mas...
...A sério que sabendo-a ali vais deixá-la ficar em vez de a resgatares para a teres contigo? 


Sofia Cardoso
26 de junho de 2017