segunda-feira, 29 de junho de 2015

Encaixe

As pessoas ouvem tudo, encaixam o que querem e interiorizam o que lhes convém.
Sempre foi assim, é assim e assim sempre será.
Porque somos todos diferentes e a maneira como encaramos os acontecimentos depende invariavelmente de como fomos moldando a nossa maneira de ser e de estar, em função das formas em que nos vimos enfiados para crescer no forno da vida, não sem esturricarmos um pouco, aqui e ali, quando sujeitos tempo demais ao seu aperto abrasador…
Cada um opina e age em conformidade, não com as circunstâncias em que o alvo da opinião se encontra, mas de acordo com a ideia por si mesmo criada do que considera que se passa, mesmo que desconheça o essencial.  
A partir daí, interessa só o que se enquadra bem na moldura para a fotografia que se tirou da situação, com a sua própria lente.
O poder de encaixe de cada um é, portanto, bem ou mal, limitado e quanto a isso não há nada a fazer, senão sensatamente optar pelo silêncio, quando nada houver de positivo para dizer.
O mais importante é ser consciente, autêntico e, por maioria de razão, coerente. Aliás, no mundo que temos hoje, é muito mais do que importante… Eu diria ser urgente!








Sofia Cardoso
28 de junho de 2015

domingo, 14 de junho de 2015

Números mágicos

Existe uma cartola de memórias numa parte mágica do meu cérebro… Quanto mais retiro dela, mais momentos saltam cá para fora. Qual buraco negro invertido de datas e respetivas recordações.
Há quem não lhes ligue nenhuma (às datas…), nem tão pouco as memorize. Já eu, nasci com uma aptidão estranha para decorar números sucessiva e involuntariamente.
Com 35 anos, ainda recordo dias de aniversário de colegas da escola primária, números de matrícula de colegas de turma do secundário e, até há uns anos, números de telefone do tempo universitário…!
E nunca fui propriamente uma amante de números. Sempre preferi as letras.
Curioso. Mas, então, por que razão os números cá ficam? Fácil. Porque guardo bem as histórias e personagens que lhes estão associados. Apenas isso.
Podem ser enredos alegres ou tristes, feitos de sorrisos ou de lágrimas. Se marcaram profundamente, aquele dia imediatamente fica gravado na mente.
Há um fator que ajuda porque as películas de memória não são mudas e nenhum mágico faria um espetáculo silencioso. Da cartola, tudo o que sai, tem banda sonora e a cada surpresa recordada, a música daquela hora.
Os coelhos, lenços e pombas brancas são muito menos espaçosos e pesados do que alguns momentos bem passados mas servem apenas para dar show, iludindo os que assistem.
Já os números, que compõem determinadas datas, funcionam como bingo com direito a prémio, traduzido em viagens de volta a experiências exatas, reais, a lugares que ainda persistem.
É claro que podemos sempre viajar em fotografias, cuidadosa ou automaticamente datadas mas, nestas, todas as personagens estarão invariavelmente estagnadas.
A mim, por mais recordações que eternize em fotos, saber-me-á sempre melhor recordá-las devidamente contextualizadas, em movimento, ao som desta ou daquela melodia e poder, de facto, abraçá-las à minha maneira, sempre que queira, pelo menos enquanto a cabeça não perder a magia.


Sofia Cardoso
14 de junho de 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Só um Sonho

Sonhei contigo.
Gostava de to dizer.
Foi tão real… Que perigo!
Tanto quanto pode ser.

Ainda estou a ver-te
Sorrir como antigamente.
Aquele gozo de ter-te
A provocar-me deliberadamente.

Já não é este o primeiro
Poema que te escrevo.
O outro foi subterrado pelo tempo
E desenterrá-lo agora, não devo.

Na verdade, nem sei o que dizia
Numa idade delicada
Em que pouco ou nada escrevia
Mas pela vida já era apaixonada.

Vens-me agora, assim, à memória
Sem que a razão o entenda.
Está bloqueada a minha história
E o destino saiu-se pior que a encomenda.

Deixa-te estar, não te incomodes
Que o que não foi, não teve que ser.
Sê feliz mas não te acomodes
A pouco, se muito puderes ter.

Eu cá sonho, timidamente
E de noite, sem me aperceber
Porque às claras e abertamente
Nem pensar nisso; é para esquecer!

Valha-me a escrita
E quem muito me conheça,
Para entender esta cabecita
E não deixar que esmoreça.

Não busco o impossível.
De facto, não busco nada.
Às recordações sou apenas sensível
E é isso que me trai de madrugada.

Fica o dito pelo não dito
Que mais não quero dizer.
Muitos anos transformaram num mito
Aquilo que não foi, nem virá a ser.


Sofia Cardoso
03 de junho de 2015