terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2 X 3

É a primeira vez que escrevo num avião. Surpreendentemente, para quem adora escrever e viajar com a mesma intensidade.
Na verdade, o avião ainda nem levantou voo mas não resisti ao ímpeto de agarrar numa caneta e no meu caderno por achar que isto até pode vir a ser interessante.
Viajo só com as minhas duas filhas, de regresso a casa após uns dias mágicos. A mais velha, junto à janela, a mais nova no meio e eu na coxia.
Estão finalmente sossegadas depois de uma certa agitação no aeroporto, fruto da combinação bombástica entre diversão e cansaço pós Disney.
Eis senão quando se instala ao meu lado um pai (em que não pude deixar de reparar porque colocou a bagagem de mão no compartimento acima da minha cabeça e sabemos como são apertados os aviões…) também só com duas filhas, aparentemente das idades das minhas, que não faço ideia de onde vêm mas a excitação persiste porque ainda não se calaram. (Pelo menos parecem divertidas!)
A mais nova já perguntou três ou quatro vezes se já pode ligar o “tablet”, ao que o pai responde as mesmas três ou quatro vezes que ainda não, dado que o avião ainda nem saiu do mesmo sítio.
Estou perdida de riso e com dificuldade em disfarçar. A situação é caricata. Revejo-me no lugar ao lado em versão masculina. E não fosse ele um pouco “engomadinho” demais para o meu estilo, até o consideraria algo jeitoso. Boa pinta, elegante, moreno com um ou outro cabelo branco a espreitar na nuca, barba estilosa de um ou dois dias, camisinha às riscas por dentro de umas calças clássicas azuis escuras a combinar e a cor dos olhos não dá exatamente para verificar ou já muita bandeira irei dar.
Instintivamente, questiono-me: estaremos em iguais circunstâncias? Talvez sim, talvez não mas acaso estivéssemos, fosse eu uma Sandra Bullock e ele um Hugh Grant, isto poderia dar uma daquelas tolas comédias românticas.
Nisto, a mais nova do lado de lá já perguntou mais duas vezes a mesma coisa e o papá (assim o trata ela) começa a não achar piada à repetição e explica-lhe que as pessoas não têm que estar a ouvi-la, completamente alheio, está claro, ao facto de estarem a ser personagens deste meu pequeno filme.
Eis que, já em pleno voo, os aparelhos eletrónicos são finalmente autorizados e um leitor de DVD portátil sossega as crianças vizinhas, fazendo a mais pequena desistir do “tablet”.
Assim que vê o leitor de DVD a exibir um filme, a minha mais nova, que entretanto olhou de soslaio para as outras, atira-me: – Devias ter uma coisa daquelas! – Antes de se resignar com o tradicional livro de colorir e respetivos lápis de cor que a mana traz na mochila.
Bem, as minhas pintam, as dele veem um filme, ele joga qualquer coisa no telemóvel (sem surpresa, um “I-Phone” adequadíssimo ao seu estilo – nada contra) e eu, que escrevia até aqui, vou interromper a escrita cujo interesse entretanto esmoreceu e vou ler um pouco, enquanto não há desenvolvimentos, apesar de me sentir, confesso, por vezes observada. (Sugestão minha, provavelmente).
Passividade interrompida, chegada a refeição, para as crianças em primeira mão. Ambos nos viramos, cada um para o lado das suas, para lhes dar uma ajudinha. Todas entretidas a atacar as massas e nós pacificamente à espera até que chega a nossa vez. Elegantemente, ele pede um copo de vinho e ao segurá-lo verifico, inadvertidamente, que não usa aliança. Qual será a sua história? Onde andará a mãe das crianças? Alguma coisa terá corrido mal (ou não…)? Eu fico pela água embora do que precise mesmo é de um café.
Terminada a refeição, ele congratula a mais pequena por ter comido a fruta toda (todos comeram), enquanto do lado de cá nenhuma de nós lhe tocou (Ups, é que o ananás corta-me o céu da boca…)
De volta à tecnologia porque entretanto uma das minhas também já reclamou o “tablet”, encostando o livro de pintar. Em contrapartida, a irmã está a fazer palavras cruzadas e ao lado o filme segue no DVD.
Assim o tempo foi passando até ao início da descida, altura em que se desligam os aparelhos e a mais pequena ao lado (que afinal me parece agora um pouco mais nova do que a minha mais pequena) pergunta: – Papá, quando “chegalmos”, comemos, lavamos os dentes e vamos logo “pala” a cama, não é? – Ficam por Lisboa, certamente. Nós seguiremos viagem. Não me importaria de ficar pois não deixaria, de certa forma, de estar em casa mas infelizmente ainda nos faltam umas duas horas de espera, mais meia hora de avião e uns quarenta minutos de carro até ao nosso destino final.
Subitamente e quase em simultâneo, de ambos os lados, as quatro miúdas pegam no panfleto com as instruções de segurança e duas delas (as mais velhas de cada lado) questionam a função dos “escorregas”, durante a descida.
Aterragem tranquila, nova aproximação para retirar a mochila (sim, o porte clássico é atenuado por uma mochila tipo Coronel Tapioca) sobre mim (se a dita me caísse em cima, esta história talvez ganhasse mais piada…)e saímos, corredor a fora rumo ao autocarro onde cada um segue para seu lado e assim com a sua vida, como convém e ainda bem, pois já vi(vi) filmes que me cheguem. No fundo, aquilo a que achei graça foi à coincidência e resolvi, por isso, registar a ocorrência.
Enfim, duas horas passadas, outro voo, igualmente sentada na coxia, desta feita do lado direito e tendo como vizinha do lado esquerdo, uma miúda nova que talvez ainda não tenha completado duas décadas de vida e que, em comum comigo, aparentemente não terá nada, para além do verniz de gel das suas unhas. Nada para contar ou a acrescentar, portanto.
A esta hora, enquanto bocejo, desejosa de chegar a casa, já o “papá-boa-figura” terá deitado as suas filhas no conforto de um qualquer belo apartamento da minha cidade, cujas luzes lá em baixo estão cada vez mais pequeninas, acentuando aquela velha saudade.      


Sofia Cardoso
28 de dezembro de 2015 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Surpresa de Sonho...

Quem gosta de preparar grandes surpresas não precisa de se apaixonar… Neste momento, não tenho borboletas no estômago… Tenho cangurus no coração!
Há anos que sonhava com esta data. Com este presente e com a sua preparação, revelação e concretização.
Mesmo quando a capacidade de sonhar foi interrompida, este desejo ficou adormecido mas nunca foi esquecido. As circunstâncias mudaram e durante vários meses questionei muita coisa e podia, de facto, ter desistido. Elas nem teriam sabido…
Felizmente não o fiz, simplesmente porque a vida me tem ensinado a não perder nenhuma oportunidade de ser e de fazer alguém feliz.
Esta surpresa não pretende ser uma oferta de mão beijada mas antes uma lição abençoada. Porque não foi apenas comprada. Passou anos a ser sonhada, desejada e, por fim, sofrida… E o facto de ter sido conseguida pretende provar que vale sempre a pena sonhar, acreditar e, sobretudo, lutar para concretizar.
A magia pode realmente acontecer e o ponto de partida será sempre crer e depois dar o melhor de nós para fazer acontecer.
A vida é demasiado curta para adiar alegrias, para desistir de projetos que podem fazer a diferença nas nossas vidas, que eternizarão memórias e sorrisos… Delas… Meus… Por elas… Pelos sonhos que um dia serão os seus...  


                                                         Sofia Cardoso
24 de dezembro de 2015 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Às vezes...

Às vezes,
Ainda duvido.
Parece irreal,
Mentira,
Ter acontecido.

Às vezes,
Ainda questiono.
Parece ingrato,
Injusto,
Este abandono.

Às vezes,
Ainda lamento.
Parece impossível,
Estupidez,
Neste momento.

Às vezes,
Ainda entristeço.
Parece escusado,
Desperdício,
Elevado preço.

E depois, 
ainda às vezes, 
penso:

Vou ultrapassar,
Ainda que demore
E pareça irrealizável,
Perdoar,
Esquecer…
…Às Vezes.


Sofia Cardoso
12 de dezembro de 2015 

sábado, 28 de novembro de 2015

Tia uma vez, tia para sempre!

Existem ex-mulheres, ex-maridos e, pasme-se, desde 2008, existem também, ex-sogros e ex-cunhados.
Na verdade, antigamente, legalmente falando, os laços de afinidade não se perdiam com o divórcio.
Pois parece que atualmente só não se perdem por morte de um dos cônjuges, pelo que, havendo divórcio, há efetivamente “ex-tudo”.
Diz-se, justificando a alteração jurídica, que antes ocorriam situações caricatas porque as pessoas podiam voltar a casar e passar a ter várias/os sogras/os. Sim? Então e os sobrinhos, sobretudo quando crianças, filhos dos ditos  ex-cunhados?! São, à luz da lei atual, despromovidos a ex-sobrinhos? Adoro a (in)congruência legal!... Mais do que caricato, é emocionalmente ridículo, ou mesmo cruel.
O casamento é (ou devia ser…) um laço dado e cortado por duas pessoas, apenas.
Códigos e leis à parte, existe, sim, algo muito superior a qualquer discussão jurídica, feita por cérebros e resolvida depois friamente no papel: um coração, feito de sentimentos gravados na carne, irrevogáveis quando verdadeiros. Um coração muito mais recetivo do que punitivo que, só em última instância, se fecha só para quem dele quer voluntariamente sair e onde há sempre espaço para quem nele quer espontaneamente existir, de forma descomplicada, sincera, correspondida, dedicada…
Pois se eu mesma toda a vida fui (sou e recuso-me a deixar de o ser!) sobrinha três vezes por parte de um só tio, por exemplo…!
Posto isto, asseguro que sou e serei natural, óbvia e orgulhosamente tia três vezes, desde ontem, em consequência de uma só união, não de sangue mas de coração.
De resto, se não precisei de ser casada para me considerar tia pela primeira vez desde o primeiro dia, é evidente que não será um malfadado divórcio que me impedirá de ser tia pela terceira vez até ao meu último dia.
Simples assim, desde 2003 e para sempre, assim as minhas três sobrinhas sintam o mesmo em relação a mim.   


Sofia Cardoso
28 de novembro de 2015 

sábado, 21 de novembro de 2015

Amachucado?

Pega numa folha de papel. Lisa, imaculada, perfeita. Agora amachuca-a (nem é preciso muito) e volta a abri-la. Consegues deixá-la exatamente como era? Claro que não…!
Também assim, se pegares numa peça de roupa delicada, uma linda e macia camisola de pura lã, por exemplo, e a colocares na máquina de lavar, numa temperatura mais elevada do que deverias e, como se não bastasse, ainda caíres na estupidez de a centrifugar como se não houvesse amanhã, quando a tirares da máquina, talvez encontres uma tesa camisola, tamanho de criança…
Estamos a falar de coisas e estas podem, verdadeiramente, mudar a sua natureza quando maltratadas.
Então… E as pessoas? Podem ser amachucadas, encolhidas (magoadas, basicamente) e irremediavelmente alteradas, corrompidas?
Acredito que não. Não na sua essência. E porquê? Simplesmente porque as pessoas têm duas capacidades essenciais que faltam às meras coisas: o poder de decisão e a inteligência. É certo que têm, igualmente, uma terceira: a memória, que se equilibra – às vezes com muita dificuldade – numa linha muito ténue entre uma capacidade ou uma fraqueza mas, querendo (essencial!) e sabendo o que é mais benéfico para si, conseguem endireitar tudo, mesmo não esquecendo como foram amarfanhadas.
Podes ter visto o teu coração amachucado por outros ou encolhido pela máquina da vida mas é a ti e só a ti que cabe a decisão de o estender para que – e por quem valha a pena que – continue a bater.










Sofia Cardoso
21 de novembro de 2015 

sábado, 7 de novembro de 2015

STOP

Sábado…
…Para variar.
Rodeada de almofadas,
Sem hora para acordar,
Sem pressa ou pressão
Para me despachar.
Pegar no carro,
Sair para passear.
Abrir um livro
A ouvir o mar.
Escrever umas linhas
Sem pensar.
Deixar o dia fluir
E o relógio ignorar.
Estar sozinha,
Não precisar de falar.
Sentar-me na areia
E o pôr-do-sol admirar.
Regressar à base,
Inventar o jantar.
Um chocolate 
A rematar.
Voltar ao livro,
Páginas devorar.
Pura e simplesmente,
Permitir-me parar.





Sofia Cardoso
07 de novembro de 2015 

sábado, 31 de outubro de 2015

Miss you...

Imagino que estejas triste comigo. Magoado, desiludido, talvez até zangado…
Estou ausente a maior parte do tempo e, quando estou presente, de ti, bem distante.
Não te dou a atenção que mereces, apesar de te adorar e de tanto precisar de estar contigo. E preciso, acredita.
Não deves acreditar, eu sei. É mais fácil pensares que me esqueci que existes.
Não me esqueci. Simplesmente não tenho mesmo tido tempo, sequer para mim.
Sei-te aí, tão carente de mim como eu de ti e passo à tua frente, ocasionalmente, quase ignorando o quanto chamas por mim. É mais fácil, ou menos penoso, digamos assim.
A verdade é que a semana voa e mal nos vemos. Chegado o fim-de-semana, a saudade de repousar no teu colo, de ver um filme aconchegada, de adormecer nos teus braços, não é mais forte do que tudo o que me impede de o fazer.
Falta-me tempo, sobram-me tarefas e, no entretanto, ambos a sofrer. Tu, calado, impávido e sereno. Eu, cansada, imparável e acelerada. 
É assim, por enquanto. Talvez encontremos uma solução justa para ambos ou chegue o dia em que eu volte a ter tempo para simplesmente me atirar sobre ti, sem pensar ou hora de me retirar.
Até lá, quero apenas que saibas que sinto verdadeiramente a tua falta, meu querido sofá.

Sofia Cardoso
31 de outubro de 2015 

domingo, 25 de outubro de 2015

Há 3 anos...

Há três anos, perdi o primeiro homem da minha vida. Aquele que mais me mimava, aquele que conscientemente nunca me abandonaria, aquele que me entregou, orgulhoso, feliz e confiante, a quem o faria…
Existem muitas formas inesperadas, injustas, penosas de perder alguém de forma definitiva. Já conheci duas delas, ambas diferentemente repentinas mas igualmente injustas. A primeira, por morte. A segunda, por desistência.
Acredito, embora doa ainda mais, que quis Deus com a primeira evitar um desgosto ainda maior quando chegasse a segunda.
Os últimos três anos têm sido um teste constante às minhas capacidades de resistência, de luta, de resiliência. E esta última semana tem sido vivida nos últimos dois anos com a mesma sensação de espera solitária e impotentemente sufocada da mesma semana vivida há três.
Não sei se vai ser assim para sempre mas ainda não consigo desligar das memórias desses oito dias de bomba relógio prestes a explodir, sem sequer ter temporizador à vista para saber quanto tempo mais para o ver partir.  
O nada poder fazer para evitar, o nada poder dizer para minimizar, o nada poder ouvir… Simplesmente não poder usufruir do direito de me despedir… Porque a medicina sabe como evitar o sofrimento físico mas não tem como evitar a dor psicológica destes momentos. Porque existe um médico perentório na hora de nos mandar simplesmente aguardar à cabeceira mas não existe quem nos dê colo e nos ensine a com isto lidar. Porque estamos lá todos, os familiares diretos (quem viria a desistir nem sequer esteve…) e os nossos amigos do peito mas cada um sozinho com a sua própria dor porque temos que parecer fortes uns pelos outros e a verdade é que não há como partilhar esta sensação de incapacidade perante a inevitabilidade de uma morte anunciada mas sem hora marcada.
Quando consegui estar sozinha no quarto, falei-lhe sem ouvir resposta, segurei na sua mão sem sentir que me sentia, sentei-me de olhar perdido sobre o Tejo e pensei na minha própria família do outro lado da margem, lá tão longe e senti-me tão sozinha… Inacreditavelmente, muito mais sozinha do que me sinto hoje…
Estas muitas recordações estão todas presentes, muito mais em sentimentos do que em imagens. Uma semana que culminou neste dia 25, do qual, a partir do telefonema matinal que pôs fim à angústia terminal, me lembro muito pouco. Sei que chovia…
Cá dentro, choverá para sempre. Não há como compensar este tipo de perda. A “ficha só cai” uns meses depois e daí em diante vamos aprendendo, cada um à sua maneira, a lidar com a ausência e a saudade. Choro, sem ninguém ver, muitas vezes; admiro, sem os conhecer, os casais de velhinhos por quem passo; invejo, sem querer, quem tem os pais ao seu lado…
…Mas sei que há provas na vida por que passamos sem entender que terão a sua qualquer razão de ser e é melhor aceitar e seguir do que perder tempo a discutir.
A melhor homenagem que lhe devo será sempre ser e viver o melhor que conseguir.


Sofia Cardoso
25 de outubro de 2015

sábado, 24 de outubro de 2015

100!!!

Assim, de repente,
É este, o número 100.
Um marco num caminho
Sempre para a frente
Só porque me faz bem
Ir sonhando, devagarinho.

Sem festa para celebrar,
Como a homónima lição,
Ainda assim vou festejar
Só convosco, de coração.

Não coleciono escritos.
Letras que saem do peito
São aquilo que me move.
Tenho os meus favoritos,
E, por eles, tarde me deito
Se a inspiração não demove.

O objetivo é um, apenas:
Alcançar outros corações
Que se revejam nas cenas
De que resultam emoções.

Estás aí e até gostas?
Não temas revelar
O que te faz sentir.
Por que não comentas,
Se te faz pensar?
Far-me-á sorrir…








Sofia Cardoso
24 de outubro de 2015 

domingo, 11 de outubro de 2015

«Amigos Improváveis»

Há quem adore animais. Também gosto muito deles e tantos há que nos ensinam muito mais que muita gente mas, verdadeiramente, adoro pessoas.
Os animais seguem um padrão de comportamento mais ou menos adequado à espécie a que pertencem, o que os distingue de todos nós, que somos especiais precisamente por sermos tão diferentes uns dos outros. AÍ reside a nossa riqueza.
Ontem vi um filme, baseado numa história verídica, que me encantou. Também adoro histórias verídicas porque nos provam tudo o que é possível ser, existir, aprender, conseguir… E nos dão verdadeiras lições de vida…
O enredo gira em torno de um emprego que nem era para o ser e de como uma simples relação completamente improvável entre duas pessoas tão distintas transforma duas vidas para sempre.
Podemos ser muito do que e de quem nos rodeia, é um facto. No entanto, podemos ser muito mais, se quisermos. Se formos nós próprios, em qualquer circunstância, perante qualquer pessoa, sem preconceitos, máscaras ou subterfúgios.
A beleza desta história encontra-se no acaso de ser justamente a diferença que gera a união dos dois personagens que, sendo de mundos antagónicos, fazem do que podia ser um choque cultural constrangedor, um abraço intelectual comovente, de forma hilariante.
Circunstâncias adversas da vida, podem ser respeitosa e inteligentemente minimizadas ao ponto de nos conseguirmos rir delas, sendo sensivelmente sinceros mas pragmáticos ao lidar com elas.
«Amigos Improváveis» deixa-nos uma tremenda lição de como não devemos julgar ninguém pela aparência, de como podemos ir mais longe se nos disponibilizarmos a isso, de como o preconceito é uma barreira transponível, de que rir é e sempre será o melhor remédio, de que a felicidade pode vir de onde e através de quem menos esperamos, de que somos todos bem maiores e melhores do que às vezes supomos…


Sofia Cardoso
11 de outubro de 2015 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mexe-te!

Queres?
Não esperes.
Se esperar for crucial,
Não desesperes.
Foca-te no essencial.

Temes?
Não te negues.
Se não tentares,
Não consegues.
Faz o que puderes.

Sonhas?
Não durmas.
Se não acordares,
Não concretizas.
Hora de te levantares.

Procuras?
Não desistas.
Se não te mexeres,
Não encontras.
Chega de te esconderes.

Acreditas?
Não desanimes.
Se não lutares,
Não chegas lá.
Mexe-te, vá!








Sofia Cardoso
08 de outubro de 2015 

domingo, 4 de outubro de 2015

Pormenores

Quando sujeitos aos maiores e inesperados embates da vida, temos apenas duas extremas opções: ou nos entregamos ou resistimos com as armas que temos. E quando não temos muito, aprendemos e habituamo-nos a defender-nos com o que estiver mais à mão. E mais à mão, pode estar qualquer coisa. Há tanta frase feita a propósito e tanta gente a saber pregar tão bem que a felicidade está nas pequenas coisas… Mas quantos, verdadeiramente, darão por elas no dia-a-dia e as gozarão?
É muito fácil identificá-las, relativamente acessível escrever sobre elas e dificílimo ser feliz através delas.
Tenho tentado afincadamente, desde logo porque não vivo de falsas frases feitas atiradas ao ar. Prefiro fazer delas verdadeiras formas de viver com os pés na terra.
Para mim, as tais “pequenas coisas” nem sequer são coisas (palavra materialista que vicia logo tudo…) São pormenores (palavra tão simples e tão rica em significado…) Feitos de gestos, de pessoas, de momentos… Um sorriso, um elogio, uma mensagem, um carinho, uma refeição. Uma paisagem, uma conversa, uma companhia, uma recordação. Um trabalho, uma música, um passeio, uma emoção… Entre dezenas de outros despretensiosos apontamentos de vida, estes têm sido a minha arma secreta, a um ponto que nem eu julgava possível.
O que tenho conseguido? Viver melhor. Simples. O que tenho aprendido? Que é mesmo verdade que quanto menos se tem menos se espera ou exige. Mais simples ainda.
Não é só uma questão de hábito. É, sobretudo, uma forma inteligente de defesa que acaba por funcionar como combate à adversidade. Resulta! E se não me levar onde quero chegar, pelo menos obriga-me a, pelo caminho, tudo melhor apreciar.


Sofia Cardoso
04 de outubro de 2015

sábado, 26 de setembro de 2015

Champagnat

Lembro-me do primeiro dia de aulas (de entrar na escola, do meu lugar junto à janela na direção da porta e do meu dossiê A5 todo aos quadradinhos…)
Lembro-me da Milu (de entrar, sorrateira, pela sala e tantas vezes se aninhar aos nossos pés, algo impensável para muitos pais, lamentavelmente, nos dias de hoje…)
Lembro-me de ficar radiante com os carimbos e os “calquitos” com que a Mariete premiava os meus trabalhos (para os miúdos de agora: “calquitos” são uns “stickers” que não se colavam, estampavam-se, quando riscados com caneta…)
Lembro-me de aprender o alfabeto e, mais tarde, de rezar para não ir ao quadro resolver problemas com divisões(sempre as letras…)
Lembro-me de adorar pintar as capas que, depois de enfiadas em argolas, serviam para arquivar (não me lembro se trabalhos, se os testes…)
Lembro-me de quão íngremes eram as escadas que tínhamos que descer para vir ao recreio (consigo ver-me a descê-las a correr…)
Lembro-me de dar voltas à palmeira em frente ao refeitório debitando os planetas do sistema solar (em dia de chamada, para os decorar…)
Lembro-me das mesas quadradas do refeitório com o seu padrão branco “estilhaçado” (e do cheirinho das especiarias da refeição da Neelam que envergonhavam o meu peixinho cozido…)
Lembro-me do imenso espaço de recreio de terra batida (de fazer comidinhas com as folhas e flores brancas dos arbustos, de dar cambalhotas nos ferros dos baloiços, de brincar no quadrado de areia…)
Lembro-me da “sirumba” desenhada no alcatrão (que evitava jogar porque não tinha jeito nenhum e era sempre uma frustração…)
Lembro-me dos dias chuvosos confinados ao pavilhão (salvos pelo jogo do elástico ou pelas danças dos Onda Choc e dos Ministars…)
Lembro-me do “templo” da música (de amar cantar o “Dó-Ré-Mi”, do palco onde queria representar mas fui sempre "só" a narradora…)
Lembro-me de tirar fotografias, abraçada às árvores (com o fotógrafo que hoje fotografa as minhas filhas e é um querido amigo…)
Lembro-me de plantar uma árvore (já tenho as filhas, falta-me só o livro…)
Lembro-me da “árvore-casa” que nos recebia todos os dias (quando lá voltei, enfiar-me lá foi a primeira coisa que fiz…)
Lembro-me da D. Alda (do respeito que lhe tínhamos…)
Lembro-me da repreensão seguida de curativos da D. Fernanda quando voei das cavalitas de uma amiga e aterrei no alcatrão (doeu-me mais a primeira do que os segundos e chorei tanto que não deixo alunos meus fazerem o mesmo…)
Lembro-me do Dr. Torres com os crescidos na sala do meu irmão (saí entretanto e não tive o prazer de ser sua aluna…)
Lembro-me do professor de música e do seu carro amarelo sem capota (mas confesso não me lembrar do seu nome…)
Lembro-me do professor de inglês (da música de bons dias e de termos escrito cartas a meninos do Gana…)
Lembro-me da professora de trabalhos manuais (e da “sala-casa” gigante que, coisas da vida, hoje me daria um jeitão na minha profissão…)
Lembro-me da Natália e da Leonor e da sua simpatia na secretaria (até das vozes…)
Lembro-me do Lita (dos tiques com o cabelo, da boa disposição, da disponibilidade, dele na estrada na carrinha azul e de ter ido, um dia, à estrada buscar um “mocassin” meu que voou para lá da rede…)
Lembro-me de todos os meus colegas (davam outro texto…)

Não me lembro do último dia talvez porque nunca gostei de despedidas mas, felizmente, temos agora o Facebook, onde me lembrei de partilhar convosco estas memórias reunidas.  


Sofia Cardoso
26 de setembro de 2015