sábado, 26 de setembro de 2015

Champagnat

Lembro-me do primeiro dia de aulas (de entrar na escola, do meu lugar junto à janela na direção da porta e do meu dossiê A5 todo aos quadradinhos…)
Lembro-me da Milu (de entrar, sorrateira, pela sala e tantas vezes se aninhar aos nossos pés, algo impensável para muitos pais, lamentavelmente, nos dias de hoje…)
Lembro-me de ficar radiante com os carimbos e os “calquitos” com que a Mariete premiava os meus trabalhos (para os miúdos de agora: “calquitos” são uns “stickers” que não se colavam, estampavam-se, quando riscados com caneta…)
Lembro-me de aprender o alfabeto e, mais tarde, de rezar para não ir ao quadro resolver problemas com contas de dividir (as letras, até hoje…)
Lembro-me de adorar pintar as capas que, depois de enfiadas em argolas, serviam para arquivar (não me lembro se trabalhos, se os testes…)
Lembro-me de quão íngremes eram as escadas que tínhamos que descer para vir ao recreio (consigo ver-me a descê-las a correr…)
Lembro-me de dar voltas à palmeira em frente ao refeitório debitando os planetas do sistema solar (em dia de chamada, para os decorar…)
Lembro-me das mesas quadradas do refeitório com o seu padrão branco “estilhaçado” (e do cheirinho das especiarias da refeição da Neelam que envergonhavam o meu peixinho cozido…)
Lembro-me do imenso espaço de recreio de terra batida (de fazer comidinhas com as folhas e flores brancas dos arbustos, de dar cambalhotas nos ferros dos baloiços, de brincar no quadrado de areia…)
Lembro-me da “sirumba” desenhada no alcatrão (que evitava jogar porque não tinha jeito nenhum e era sempre uma frustração…)
Lembro-me dos dias chuvosos confinados ao pavilhão (salvos pelo jogo do elástico ou pelas danças dos Onda Choc e dos Ministars…)
Lembro-me do “templo” da música (de amar cantar o “Dó-Ré-Mi”, do palco onde sempre fui a narradora…)
Lembro-me de tirar fotografias, abraçada às árvores (com o fotógrafo que hoje fotografa as minhas filhas e é um querido amigo…)
Lembro-me de plantar uma árvore (já tenho as filhas, falta-me só o livro…)
Lembro-me da “árvore-casa” que nos recebia todos os dias (quando lá voltei, enfiar-me lá foi a primeira coisa que fiz…)
Lembro-me da D. Alda (do respeito que lhe tínhamos…)
Lembro-me da repreensão seguida de curativos da D. Fernanda quando voei das cavalitas de uma amiga e aterrei no alcatrão (doeu-me mais a primeira do que os segundos e chorei tanto que não deixo alunos meus fazerem o mesmo…)
Lembro-me do Dr. Torres com os crescidos na sala do meu irmão (saí entretanto e não tive o prazer de ser sua aluna…)
Lembro-me do professor de música e do seu carro amarelo sem capota (mas confesso não me lembrar do seu nome…)
Lembro-me do professor de inglês (da música de bons dias e de termos escrito cartas a meninos do Gana…)
Lembro-me da professora de trabalhos manuais (e da “sala-casa” gigante que, coisas da vida, hoje me daria um jeitão na minha profissão…)
Lembro-me da Natália e da Leonor e da sua simpatia na secretaria (até das vozes…)
Lembro-me do Lita (dos tiques com o cabelo, da boa disposição, da disponibilidade, dele na estrada na carrinha azul e de ter ido, um dia, à estrada buscar um “mocassin” meu que voou para lá da rede…)
Lembro-me de todos os meus colegas (davam outro texto…)

Não me lembro do último dia talvez porque nunca gostei de despedidas mas, felizmente, temos agora o Facebook, onde me lembrei de partilhar convosco estas memórias reunidas.  


Sofia Cardoso
26 de setembro de 2015

domingo, 20 de setembro de 2015

Tempo de recriar o tempo

Precisava de mais tempo…
Uma casa, duas filhas cento e onze alunos, sessenta km por dia e vários hobbies com que me entreter exigem um pouco de uma pessoa só.
Por aqui multiplica-se tudo a olhos vistos: a roupa para lavar/passar, a lista de supermercado, refeições para preparar, o pó (e os espirros!) para limpar, respostas para todas as solicitações/necessidades das miúdas e mimos que merecem, burocracias e obrigações a todos os níveis, trabalhos da escola para planear, km para circular, textos para escrever, livros para ler… Tudo menos o tempo que, haja o que houver, me confina o dia a 24 mínimas horas.
E o mais engraçado é que há um ponto comum a tanta responsabilidade: a criatividade.
Basicamente, preciso dela para quase tudo: para programar a ementa semanal, para fugir da rotina nos tempos livres das minhas M&Ms, para as ideias a concretizar com os meus alunos e para me dedicar ao meu hobby principal: este.
Isto implica que a cabecinha esteja sempre a trabalhar, a pensar, a inventar, ao ritmo e velocidade do tempo que tenho para pôr tudo a funcionar e raramente posso parar.
Digamos que paro basicamente para dormir, ainda que às vezes até nos sonhos não tenha mãos a medir.
Até gosto desta adrenalina que condiz com a minha personalidade enérgica mas, como se diz, a pressa costuma ser inimiga da perfeição e gosto de tudo alcançado tal e qual como desejado e não que me saia tudo ao lado.
O alicerce do sucesso é, sem dúvida, uma boa capacidade de organização, apoiada na capacidade de improviso escondida na manga, sempre contando com uma imensa dose de serenidade como arma secreta para não stressar.
Se dependesse de mim, o tempo multiplicar-se-ia na proporção das tarefas e prazeres. Na falta desse e de outros superpoderes, há que encaixar, o melhor que se conseguir, todos os afazeres.
Quando se quer, é-se capaz, levando o dia-a-dia com algum rigor e não na base do tanto faz.


Sofia Cardoso
20 de setembro de 2015 

What if...?

Questiono-me muitas vezes se será que, de onde estiveres, se estiveres, me vês…
Nos dias (poucos, felizmente!) em que me vou mesmo abaixo e estou mesmo triste, quando penso que a resposta a essa questão pode ser positiva, passo da tristeza à revolta numa fração de segundo e só me apetece partir a loiça toda e confrontar-Vos aos dois, a ti e a Ele.
Que raio de proteção é essa aí de cima, em que cresci crendo, que não envia sinal de mudança?
Gosto de vos imaginar juntos, ainda que não entenda os vossos motivos, nem onde me estão a levar.
A verdade é que há muito que deixei de ver pegadas na areia e não me sinto nada levada ao colo…!
Continuo, sim, impelida por mim, rumando sei lá para onde, no barquinho que encontrei para sair da praia onde me vi estendida, depois de tempos tempestuosos em mar alto e revolto. Remo sozinha por três, numa embarcação que de motor só mesmo o coração e aguardo que daí me soprem ventos favoráveis.
Faço o que posso o melhor que consigo, exatamente como me compete mas uma ajudinha divina talvez facilitasse um pouco a minha vidinha.
Se Deus fosse um de nós, andasse por ai mesmo à mão, e eu agora o encontrasse, entraríamos com certeza num daqueles diálogos que começaria comigo a soltar a temida frase: «precisamos de conversar…» com o tom mais dramático que conseguisse.
Começava logo por lhe perguntar se achava mesmo que tu lhe ias fazer mais falta a Ele do que a mim. E rapidamente chegaria à parte do: «afinal, o que andam vocês os dois por aí a fazer?» É que nos meus ombros sinto muito mais o peso da responsabilidade do que a(s) mão(s) que me poderia(m) amparar até voltar a vislumbrar a felicidade.
Entendam-se lá quanto à forma de me ajudar a conseguir porque não sou pessoa de desistir, apesar de tão cansada de à adversidade persistir. 


Sofia Cardoso
19 de setembro de 2015

domingo, 13 de setembro de 2015

Sofesapp

Nos dias tecnologicamente loucos de hoje, tens a certeza que uma amiga realmente te valoriza quando……………… Te diz que deveria ser possível “minimizar-te” para andares no bolso…! Ah, ah, ah, ah!
Já me compararam de forma lisonjeira a muita coisa mas transformar-me numa qualquer aplicação para ter sempre à mão é uma inovação muito à frente, até para mim!
Na verdade, por mais “luz” que aches que eu dou à tua vida, sob a forma de sorrisos ou de conselhos que valem o que valem mas que, pelo menos, são garantidamente sinceros e dados de coração, não sei se farias um bom negócio em instalar-me…
Cheira-me que eu seria a minhoca na maçã do teu“I-coiso”. Desde logo, porque ia ocupar imenso espaço e consumir bateria até dizer chega. Já viste como falo e a que velocidade?! Depois, seria difícil instalar-me porque sou um bocadinho complicada, exigente e pouco compatível com aplicações da treta que atrapalham o sistema… E, pior, uma vez instalada, ia massacrar-te com notificações a toda a hora…! Isto para não falar das atualizações que teria que fazer regularmente, já que não gosto nada de me ver ultrapassada.
Outra questão pertinente seria a da exclusividade. Imagina que depois a “Maçã” me achava graça e me clonava como se não houvesse amanhã por esse mundo fora?! É que estou mais para pirilampo do que para central elétrica. A minha luzinha vem de dentro e não é para todos. É só para quem a consegue ver...
Bom, posto isto, esquece lá a tecnologia de ponta e contenta-te com a Sofes real, ao vivo e a cores, que com todos os defeitos que possa ter, até sem energia, completamente às escuras, estará aqui sempre para te valer. Pode ser?


Sofia Cardoso
13 de setembro de 2015

Avestruz

Fingir que não se vê e enfiar a cabeça na areia, qual avestruz, para justificar não ver de facto, não me parece ser uma atitude muito inteligente.
As coisas acontecem, quer se queira quer não e esconder-nos não nos protege, muito pelo contrário, deixa-nos curiosamente mais expostos ao sofrimento. Desde logo, porque se não vemos o perigo chegar, não o podemos evitar ou, pelo menos, acautelar. Se não o queremos ver ou prever, não aprendemos a dele nos defender.
A coragem implica, à partida, reconhecimento da ameaça, da adversidade. E querer constantemente negá-las, afirmando que está sempre tudo bem, ou mascarando o que não está, pintando a realidade com tintas de quinta, não é sinal de audácia, é evidência de fraqueza. De querer optar pelo caminho aparentemente mais fácil mas que mais tarde se revelará muito mais penoso.
De qualquer forma, não dá para fingir para sempre porque o buraco no chão vai abrindo, abrindo, e nem que seja à força vai revelando a verdade.
Não se ganha nada em adiar a realidade. Ao invés, perde-se tempo e por vezes consome-se mais energia na resistência do que no combate.
Os buracos da vida não foram feitos para nos enfiarmos neles, com medo. Foram feitos para nos ensinar a saltar, com bravura.
Tirar a cabeça da terra, ver, aceitar e tentar minimizar o impacto do que acontece à nossa volta, talvez diminuísse alguma amargura.


Sofia Cardoso
12 de setembro de 2015

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

11 de setembro

Não preciso de voltar às imagens que marcaram este dia para sempre, para recordar sempre este dia. Esta data ficou definitivamente registada como uma tatuagem na memória. Na minha e na da Humanidade. De tal forma, que me lembro exatamente por onde andei e o que fiz naquele dia. E, como eu, milhões de pessoas por todo o mundo…
Vinha do Algarve, regressando de umas férias que marcaram uma transição na minha vida, ironicamente, há 14 anos. Catorze… Um número que era mágico e deixou de o ser antes de atingidos os ditos…
Enfim, vinha em viagem, alegremente e de carro, quando comecei a ouvir as primeiras notícias na rádio. Sem perceber muito bem, porque eram ainda escassas as informações que chegavam, não valorizei imediatamente.
Chegada a Lisboa, fui direta à faculdade, penso que por causa da matrícula para o 5.º e último ano do curso, e aí os rumores ganharam nova força e geraram uma crescente preocupação, aumentando a suspeita de que não se teria tratado apenas de um acidente de aviação.
Tenho uma vaga ideia de estar na biblioteca da FDL, a consultar a internet e de ter sentido uma certa angústia. Nada comparado com o aperto que me cortou a respiração assim que cheguei a casa e me deparei com as imagens de última hora na televisão.
O choque inicial da certeza de atentado, associado à visão, em direto, do embate do segundo avião na torre gémea da primeira, deu lugar à maior sensação de terror que alguma vez senti. Não parecia real, quanto mais possível... Ainda hoje custa a acreditar, apesar da nua e crua verdade de tudo o que se seguiu… 
A imagem dos papéis saídos automaticamente da torre em voo planado foi rápida e drasticamente substituída pela imagem de pessoas desesperadamente em queda livre e ………….................. voluntária …………………….....


Esta é a parte que não tem descrição, comentário, sentimento à altura. A parte apenas digna de um profundo e constrangedor silêncio ……………..........
Que não dura um minuto… Durará o que durar a recordação desta imagem que ainda hoje me aperta o peito e me traz as lágrimas aos olhos...
Se te revês nestas palavras e refletes todos os anos, como eu, sobre como este dia foi possível, imagina quem neste dia quase tudo perdeu, quem o viveu e como o descreveria, se pudesse, quem nele, de facto, se perdeu…
E parece que perdidos, continuamos todos… A Humanidade não aprende rigorosamente nada com a história. Persiste em engrandecer a má memória…  
Sofia Cardoso
11 de setembro de 2015

terça-feira, 8 de setembro de 2015

À vela...

Ainda tenho a cabeça carregada de termos náuticos, os braços e joelhos doridos e o coração cheio…!
Curiosamente, apesar de viver há treze anos com o mar à porta, não punha o pé num veleiro há mais de quinze.
Noutra vida, passeei pelo Tejo, aventurei-me pelo Atlântico e o último desafio desses tempos foi a odisseia Lisboa – Algarve que começou com um pequeno enjoo logo à saída da barra (acontece aos melhores…) e terminou com uma insolação já em terras algarvias (ok, aconteceu-me a mim).
Hoje, ironicamente, são os ventos dessas mesmas terras que sopram a direção das velas da minha vida e apercebo-me da falta que sentia de muitas das paisagens que deixei para trás. E para quê? Para aprender a maior lição e a mais elementar, básica mesmo. A de que rigorosamente nada é seguro e de que pôr a mão no fogo por alguém pode mesmo resultar em queimadura de terceiro grau.
Seja como for, estou a desviar-me da rota que me trouxe ao leme da escrita.
Desafiada vezes sem conta a voltar a embarcar, por mais vontade que tivesse, a distância e as marés adversas mantiveram-me longe do cais durante tempo demais, até este fim de semana.
Habituada a assistir, de longe e em seco, à beleza do enquadramento de velas em regata, eis que me vejo, finalmente, duplamente participativa.
Na primeira, sem saber exatamente ao que ia, até porque já nem me lembrava da quantidade de cabos coloridos e nomes estranhos envolvidos, limitei-me a começar por observar, assimilar tudo quanto podia, fazendo o que o skipper pedia. E assim, naturalmente, já na fase de passeio, regata perdida, acabei por merecer a confiança de manobrar a vela grande. Bolas, é exigente, a dita!
Foi tão enriquecedora e gratificante esta minha estreia que não hesitei em oferecer a minha força anímica (e de braços, caso a quisessem…) para a regata do dia seguinte, não estando a tripulação ainda completa.
E quiseram, pois inacreditavelmente amarraram-me ao molinete de manobra da vela grande. Que responsabilidade…! "Caça, caça! Folga, folga!" Ufa, felizmente sou eficiente a cumprir instruções e a coisa até correu bem. Tão bem, que a par do excelente desempenho do resto da malta, ganhámos. Vá, na realidade, porque depois, também me ensinaram, existem aqueles desmancha-prazeres técnicos do rating e afins. (Detalhes…)
Interessa que uma equipa coesa (indispensável!), eficiente (necessário!), maioritariamente feminina (importante!), bem orientada (essencial!), disciplinada (obrigatório!), bem disposta (excelente!) e otimista (ideal!) só poderia resultar em sucesso e a vitória (de principiante, no que a mim diz respeito) soube maravilhosamente, confesso.
Ainda assim, espírito competitivo e adrenalina à parte, o mais marcante foi mesmo o gozo que a dupla experiência me deu. Quase de forma terapêutica, fez-me alhear completamente de toda e qualquer fonte de preocupação, sentir-me realizada, na companhia de amizades novas a partir de uma mais antiga renovada, divertida, entusiasmada.
Aprendi, reaprendi, revivi e vivi, o momento, o que é cada vez mais o meu intento.  
Velejar, ao sabor do vento, sem expectativas, medos ou lamentos, à bolina, acautelando a rotina de frente, apontando às melhores perspetivas.








Sofia Cardoso
07 de setembro de 2015