sábado, 26 de novembro de 2016

Hasta la Verdad...

O mundo inteiro já sabe que Fidel morreu mas quantos saberão verdadeiramente como aquele país, nas últimas décadas, viveu? 

Propagam-se ecos surdos por essa internet fora. Opiniões mais ou menos estudadas, politicamente influenciadas, com certeza até bem mais fundamentadas do que qualquer uma das minhas modestas considerações.
À parte o conhecimento geral e teórico sobre a realidade política do país, tenho a experiência de quem lá esteve. Pouco tempo, verdade, e num contexto pouco cultural mas o suficiente para sentir o ambiente.
Março de 2002, 5.º ano da faculdade, viagem de finalistas, passagem breve por Havana antes do destino final: Varadero e sua famosa paisagem.
Brindámos com Daiquiris de morango no glamoroso Floridita, admirámos as paredes de memórias escritas da Bodeguita del Medio, observámos a arte de fazer os tão cobiçados charutos, subimos a imponente escadaria do Capitólio, fotografámos a Praça da Revolução… Mas não foi nada disto que me deixou maior impressão.
Liberdade? Num país onde se vive com medo e sob permanente vigilância? Onde adultos veem luxo em produtos de higiene básicos para nós, crianças vibram por conseguir umas esferográficas azuis e nem uns nem outros estão autorizados a receber nada disto de presente? Liberdade ou repressão?
Nunca me senti tão segura numa rua à noite como em Havana… Há polícia em todo o lado e não é para nos proteger a nós, turistas… É sobretudo para os controlar a eles, aos cidadãos ditos livres.
Passeei por uma cidade feita de maravilhosos exemplares de edifícios arquitetónicos, melancolicamente a cair aos bocados e inacreditavelmente habitados… Atravessada por estradas onde circulam alguns belos e antigos carros e se improvisam autocarros… Povoada por famílias enfiadas em escassos metros quadrados…
A experiência mais esclarecedora foi a que vivi, com umas amigas, depois de sumidamente abordada numa feira de rua por uma jovem mulher. Se quisesse fazer trancinhas no cabelo, que a seguisse secretamente como se continuasse a passear, sem nunca com ela falar… Fomos… Fizemos as ditas trancinhas numa casa do tamanho do meu hall de entrada, onde viviam mais pessoas do que na minha, onde o único luxo era uma minúscula televisão, onde tudo era uma só divisão…
Nunca me senti tão clandestina e tão cúmplice da adversidade alheia. Se fosse apanhada, seria presa, confessou-nos… O valor das tranças, feitas em minutos por aquelas mãos (pela prática ou pelo receio) aceleradas, era irrisório para mim mas significaria sei lá quanto no dia de quem vivia naquelas paredes descascadas…
Não vivi a população de forma mais profunda do que isto mas fiquei com a profunda convicção de que só poderá falar sobre Fidel e as reais consequências da sua liderança quem verdadeiramente viveu sob as mesmas, diariamente, naquele país. Isto se, de facto, puder… 
...Haja esperança.


Sofia Cardoso
26 de novembro de 2016

domingo, 9 de outubro de 2016

Paixão

Nunca foi físico, não é físico,
Porque é muito mais do que físico…
Partindo dele, transcende-o…
É uma atração intelectual,
Uma afinidade imaterial.

A empatia que gera o sorriso…
A profundidade do olhar…
A alegria na voz…
A espontaneidade do toque.
O coração a bater em sintonia…
…Desenfreado, em correria.
A intensidade da emoção,
Motivada pela melodia…
Que reflete a mesma paixão.
A simplicidade de se dar,
Sem temer a euforia.
Inexplicável conexão,
Que, mesmo em lágrimas,
Exprime a mesma alegria.

E no fim o vazio…
De tamanha elevação,
Recupera-se devagar,
Refletindo horas a fio,
Até com apreensão,
Sobre como o justificar.







Sofia Cardoso
09 de outubro de 2016

domingo, 25 de setembro de 2016

Metamorfose

Até 2015, era uma lagartinha que nunca se achou feia mas que se deixava arrastar pelo que à sua volta via, sem grande ambição ou convicção no quão longe poderia chegar.
Medo? Preguiça? Falta de tempo? Tudo razões plausíveis que um dia resolveu contrariar, quando começou a sonhar e a querer acreditar. Então construiu, com afinco, um casulo onde se fechou, durante um ano, sozinha a trabalhar. Durante todo esse tempo, retirou de cada um dos seus 365 dias uma cor bonita com que se pintar e foi-se transformando até criar um padrão que a fizesse brilhar.
Em 2016, já uma borboleta pronta para se apresentar, saiu do casulo, pelas próprias asas, decidida e sem receio de fraquejar. Foi quando percebeu que sabia voar e que nas mãos dos outros poderia pousar. Todos quantos agora a podem admirar e para sempre preservar.


Assim a mera escrita se fez livro e a mera criadora se fez escritora. Porque quando se sonha e se acredita só é preciso trabalhar, trabalhar, trabalhar...
E este processo todo, em que às vezes ainda é difícil acreditar, só prova que vale sempre a pena não deixar de lutar, porque um dia se consegue e o que ficou para trás foi só parte da construção do caminho para lá chegar.  

Sofia Cardoso

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

40, a sério?!?!

Era uma vez uma miúda que adotou o melhor amigo do irmão…
A mesma miúda que entrou na tua vida há cerca de 26 anos e que se instalou no melhor lugar que encontrou.
O mesmo lugar privilegiado que daí até hoje lhe tem permitido partilhar mil e uma experiências contigo.
As mesmas experiências que nos fizeram crescer juntos, da pré-adolescência até à idade adulta.
Um crescimento feito de histórias com episódios intercalados de drama e comédia.
Drama e comédia que sempre tão bem soubeste partilhar porque a tua disponibilidade não tem limites e, sempre presente, conseguiste estar.
Uma presença que nunca conheceu distâncias porque de Sintra ao Algarve, passando maioritariamente por Lisboa, nunca deixámos de nos apoiar.
Um apoio incondicional de quem corre lado a lado, não para ganhar, mas pelo simples prazer da corrida partilhar.
Uma partilha que soma muito mais do que corridas. Soma emoções, lições e (vá lá, tenho que dizer…) umas belíssimas refeições, a pretexto de desabafos ou comemorações.
Para desabafar, comemorar, ajudar ou simplesmente da vida desfrutar, estás sempre aí, com uma paciência admirável e inigualável.
A paciência de quem comigo subia a serra; de quem apadrinha; de quem até o nosso animal de estimação (que até a ti devo a alegria de ter encontrado) ajuda, no seu último dia, a devolver à terra; de quem ténis me ensinou a jogar; de quem me ensinou a conduzir; de quem tem sempre um spot novo para me apresentar; de quem comigo nunca precisou de discutir; de quem se levanta de madrugada para ao aeroporto me levar; de quem, de mim, conseguiu ainda nunca se fartar…
E não te fartas porque a tua dedicação, carinho e preocupação, a par do teu (muito) bom feitio, tranquilidade e bom coração, fazem de ti uma pessoa realmente especial e isso não vai nunca depender da tua idade.
Idade linda, a que hoje completas, e que desejo te complete a ti com o que mais desejas, para seres muito feliz a partir daqui.
Daqui, deste momento em que esta tua amiga e afilhada te reafirma que gosta muito, muito, de ti e que espera estar sempre aqui.
Podia dizer muito mais e talvez até muito melhor mas releva muito mais o que vamos vivendo do que o que sobre isso for escrevendo, ainda que já faças parte incontornável de um livro que eu conheço, só porque o laço que nos une é infindável.
E agora, siga pelos quarenta a abrir caminho para esta miúda que está sempre três passos de ano atrás, cronologicamente, mas que te seguirá sempre muito atenta e orgulhosamente.  
Sofia Cardoso
18 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

(Sobre)viver no Algarve em agosto

É sabido e inegável que o Algarve é uma confusão em agosto. Só que para muitos é também difícil ou impossível sair dele, uma vez que aí residem e trabalham.
Entendo, na pele, o que isso implica e, para não me limitar a queixar-me como toda a gente, arranjei os meus próprios escapes.
Assim, o maior e mais simples segredo é: se não os podemos vencer… Evitemo-los!
Comecemos, então, pelas necessidades elementares: comer e dormir.
Para ter a casa provida de tudo o que precisamos, o melhor é fazer umas compras alargadas, qual formiga em versão verão, e encher a despensa. Nesse sentido, obviamente temos que enfrentar aquela temível fera que nesta altura engole dezenas de pessoas de uma só vez, mais conhecida por supermercado (ou se for mesmo um monstro, hipermercado). O meu conselho: hora de abertura (ao sábado, se o horário de trabalho não o permitir durante a semana).
Depois, temos a questão do conseguir dormir. Se morarmos num local especialmente concorrido e propenso a barulho noturno, sugiro a TV ligada até adormecer (algumas até desligam automaticamente por inação ou podem ser programadas para tal). Se preferirem, uma música suave também é boa ideia. Ainda assim, se o desespero for muito… Tampões nos ouvidos! (Nunca precisei).
Bem, se tivermos mantimentos e conseguirmos dormir, já é meio caminho andado para nos aguentarmos este mês.
Se quisermos ir mais longe e gozar de alguns privilégios, não desconsideremos a praia ou uma ida a um restaurante. Como? Fácil. Tendo carro e um horário decente, é deixar logo de manhã no carro o que precisamos e depois sair do emprego diretamente para a praia. Se for fim-de-semana, mais motivos teremos para ir só ao fim do dia. A maioria das pessoas já estará “no vir” e nós ainda “no ir”. E se, mesmo chegando quase às 18h, ainda estiver muita gente (nunca está) é só andar uns metros para a esquerda ou para a direita da área concessionada (faz-nos bem o exercício, especialmente se gostarmos de Bolas de Berlim…) e teremos de certeza todo o espaço e sossego de que precisamos. (Com km de areal, não há realmente necessidade de ficar em cima de ninguém!)
Toalha estendida, aconselho a desfrutar, pelo menos, até ao pôr-do-sol. Os outros (os de fora) já se foram, stressados para arranjar mesa no restaurante X, Y ou Z e nós ajeitamos qualquer coisa prática quando chegarmos a casa e não temos pressa para ir tomar duche e escolher o modelito para o jantar.
De qualquer forma, como também somos filhos de Deus, se não nos apetecer pensar em nada e tivermos uns trocos no bolso, podemos sempre comer qualquer coisa rápida algures no caminho para casa.
Querendo ir ainda mais longe e darmo-nos ao luxo de jantar num bom restaurante, sem problema. É só optar por um daqueles que reservam mesa e marcar com a devida antecedência. Filas é que não!
Por falar em filas, no que toca ao trânsito, evitem a estrada nacional e sejam particularmente pacientes. Se possível, optem por andar a pé em curtas deslocações.
Resumindo, façam o que fizerem, sobretudo não se enervem ou se queixem porque enervados já vêm muitos dos que estão de férias e não podemos deixar de reconhecer que este paraíso, suas praias e restaurantes são todos nossos nos restantes onze meses do ano.
E sabem de onde vem a inspiração para este texto? Do facto de hoje ser aquele dia horrendo em matéria de multidões, chamado domingo e serem 19h30m e eu estar sossegadinha a escrever, na praia, onde cheguei pelas 17h30m, onde ainda tenciono ler até o sol desaparecer e neste momento estar a ficar cada vez mais isolada porque estão (quase) todos em debandada.
Já não está um calor insuportável, só oiço o mar e é verdadeiramente agradável.
E quando o sol se puser, lá para as 20h30m, eu regressarei calmamente, a minha casa, a escassos 15min de carro, tomarei um duche sem pressa, comerei qualquer coisa com mais tempo ainda e deitar-me-ei relaxada, prontinha para o que a semana trouxer.
Quanto melhor aproveitar estes dias, mesmo estando a trabalhar, mais depressa o tempo vai passar e, quando der por mim, está o nosso querido mês de agosto a terminar. 

   
Sofia Cardoso
07 de agosto de 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Cartas... Que saudades!

A tecnologia suplantada pela saudade da tradição…
Depois de receber uma vídeo chamada, fui rapidamente levada a bons velhos tempos, onde se escrevia à mão e não se teclava.
E a evolução dos tempos tem coisas mesmo curiosas. Eu, que hoje em dia sou completamente avessa a fazer amigos pela internet e não aceito ninguém como amigo no Facebook que não conheça de facto, fiz um amigo há mais de 20 anos e um perfeito desconhecido na altura, através de uma cadeia de cartas – uma espécie de rede social à moda antiga que já nem sei como começava mas que fazia jovens de todo o país trocarem postais.
Com esta recordação que data de 1994 (!), veio-me uma imensa saudade das cartas e postais que tanto escrevi e tanto recebi, de amigos e familiares, nos tempos em que o telemóvel nem era um sonho, quanto mais uma necessidade e o computador ainda não era uma social realidade.
Sempre gostei de escrever, de comunicar, de estar em contacto com as pessoas. E se agora é tudo imediato e por um lado se encurtam (ou dissimulam) as distâncias, por outro, nada se compara à emoção de esperar dia após dia e espreitar a caixa do correio para saber se havia novidades. E quando havia, já só se pensava em escrever de volta porque quanto mais depressa se o fizesse, mais depressa viria nova resposta.
Perdida nestas recordações, fui buscar aquela caixa fechada há tempo demais no alto do armário da lavandaria e abri um poço de palavras escritas que me fizeram rir e chorar. E havia tanto para relembrar e apreciar…!
Encontrei correspondência de pessoas que já nem sei quem são e daqueles que até hoje guardo no meu coração mas cujas palavras não me lembrava de tão distantes que estão.
É estranho… Estamos todos tão mais perto, é tudo tão mais rápido e comunicamos cada vez menos profundamente… É sempre o básico, só para combinar isto ou aquilo ou tratar de alguma questão mais urgente.
Admiro e usufruo muito da tecnologia e do que nos permite atualmente. Adoro, por exemplo, o poder imediato das imagens que podemos fazer chegar a qualquer parte do mundo, em qualquer momento, mas confesso que sinto muita falta do poder das palavras. Na sua essência, com amor, sem urgência…  


Sofia Cardoso
04 de agosto de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

RE-LA-TI-VI-ZAR

Escrever o meu livro implicou um exercício permanente de pensamento positivo, sob um olhar atento a tudo o que vi e vivi diariamente.
Essa perspetiva da realidade, motivadora de uma forma muito particular de ser e de estar, criou em mim um hábito que tão cedo não me largará. De modo que, todos os dias, quando algo me inspira, me marca, me alegra, sou imediatamente impelida a reconhecer que esse pormenor fez o meu dia, embora já não escreva diariamente.
Esta manhã vivi um momento especial. Daqueles bem simples que nos enchem o coração e que põem num canto qualquer preocupação.
Nem toda a gente tem a capacidade de lidar com a diferença, de enfrentar a provação. Eu admiro muito quem o faz e demonstra que se entrega totalmente de alma e coração.
Nós em família na praia, primos saudáveis e felizes a brincar juntos, lado a lado com crianças a quem a vida não deu a mesma liberdade.
Vieste ter comigo para me cumprimentar com a “tua” menina ao colo e comoveste-me mesmo… Felizmente estava de óculos escuros porque não me contive. A forma, também comovida, como falaste, a (ainda tão) curta história de vida que trazias ao colo e que comigo partilhaste mexeu comigo e corroborou a minha premente necessidade de valorizar cada vez mais tudo o que tenho (que já é tanto…) e relativizar tudo o que não tenho ou que já tive e deixei de ter.
A vida muda num segundo e nunca sabemos o que virá a seguir. Todos o sabem sobejamente mas nem todos o vivem conscientemente. Há que RE-LA-TI-VI-ZAR quase tudo o que de menos bom nos vai acontecendo porque há situações, realidades e condições muito complexas e até com essas se aprende a lidar. Nem sempre é fácil mas basta ser possível e vale tanto a pena…!
Não há como fugir do que a vida nos reserva mas podemos decidir como a queremos encarar. Se cabisbaixos, receosos e queixosos, se sorridentes, positivos e resistentes.
A atitude, sempre, a fazer toda a diferença e quanto mais se trabalha nela positivamente mais fácil se vai tornando efetivamente.
Acreditem, as circunstâncias só vos destroem até onde vocês o permitem.   


Sofia Cardoso
26 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

PORTUGAL!!!

24h depois, a serenidade. Há doze anos que tinha entalada esta felicidade. E acreditei mesmo que era desta. Não desanimei, nem censurei a Seleção após a sua primeira exibição. Não questionei, nem me lamentei.
Não tenho jeito para “Velha do Restelo”. Sou de convicções, de “feelings”, de firmes posições.
Em 2004, a derrota ficou-me atravessada e gravou-me na memória a imagem de mim mesma, no chão, ajoelhada, incrédula e frustrada, só superada pelas lágrimas do Ronaldo e pela sensação geral de uma Nação desolada.
Nunca tínhamos estado tão perto e faltou-nos mesmo só um bocadinho assim… E em casa, num ano que elevou a motivação e o orgulho nacional a um nível nunca visto.
Certo é que, desde então, a esperança se renova a cada quatro anos, a bandeira regressa à janela e o meu velhinho cachecol renova a sua função.
Este ano, talvez porque estou numa fase de regeneração interior, senti uma confiança diferente, desde o primeiro dia. Nunca duvidei e torci sempre com o mesmo entusiasmo até à certeza que firmei depois da meia-final. Quando percebi que o nosso adversário seria o país anfitrião, quando nos atacaram, menosprezaram e ridicularizaram, consegui ver um filme antigo com um final reescrito.
A conjuntura fazia adivinhar que seria a nossa vez de festejar.
A minha certeza era tão grande que ousei assumi-la por diversas vezes publicamente, quase soando a presunção. Era mera convicção mas daquelas que vem do fundo da alma, da ingenuidade ou simplesmente do coração.
Chegado o grande dia, a hora H e o momento crucial da lesão de Ronaldo, não vi o caso mal parado. Fiquei revoltada porque não seria a vitória sonhada mas redobrei a confiança porque perante a adversidade fomos nobres e valentes e perder seria uma barbaridade que estava definitivamente fora de questão .
Provámos que não custa sonhar mas também não basta. É preciso acreditar e, com todas as forças, lutar! Pegar nas armas (em todas e sem descriminar) e marchar. Com garra, com nível, humilde e justamente pô-los a andar.
Soubemos levantar o esplendor de Portugal e provar ao mundo que, sim, somos um país pequenino mas enorme em tradição e comunhão. Sabemos dar as mãos e até dar a mão aos adeptos adversários, respeitando a sua deceção.
Só um imenso respeito pelo espírito de Nação, faz cidades inteiras pararem, comunidades por todo o mundo festejarem e várias nacionalidades publicamente nos felicitarem.
Não somos onze milhões a celebrar… Somos uma só alma cuja riqueza não há milhões no mundo que consigam comprar.  
O meu imenso brigada aos nossos heróis que enfrentaram as brumas da memória e à glória desta vitória nos guiaram.

   







Sofia Cardoso
11 de julho de 2016

sábado, 9 de julho de 2016

Deus quis, eu sonhei, a obra nasceu…!
É com enorme alegria e gratidão que partilho convosco o meu sonho tornado realidade:


Este livro resulta de um ano de muito trabalho interior, de uma entrega diária, sentida, por vezes difícil… Espelho do que a minha vida tem de mais simples e, por isso, mais importante: pessoas e momentos. O desafio agora é reconhecerem-se neles…
Muito obrigada a todos (muitos de vós…) quantos me serviram de inspiração em cada pormenor e à Capital Books que me conduziu tão bem até aqui.

Sofia Cardoso
05 de julho de 2016

sábado, 2 de julho de 2016

Até sempre...!

Depois de um dia como o de ontem, fico sempre num reboliço interior. E o que faço para sossegar? Escrevo, naturalmente.
Voltei àquela casa, a convite, supostamente apenas por seis meses, seis anos depois da primeira experiência por lá. Fiquei cinco anos…
Cinco anos muito cheios, muito emotivos, onde houve de tudo um pouco: riso, choro, união, desilusão… Onde fiz um pouco de tudo: fui apoio das colegas e seus alunos, prestei alguns serviços administrativos pontuais, vigiei recreios, dei aulas de Expressão Plástica, fui revisora, jornalista, conselheira, cenógrafa… Onde recebi de tudo: carinho, compreensão, amizade, chamadas de atenção, elogios e uma ou outra lição.
Nem sempre foi fácil ou mesmo gratificante porque é complicado o meio da educação.
Sempre disse aos meus alunos que os tratava como meus filhos. Ora, se nem sempre é simples ser mãe das minhas próprias filhas, em quem invisto tudo, dia após dia, e mesmo assim enfrento obstáculos e sou constantemente testada, mais difícil se torna ensinar/educar sobre educação dada por outrem e todos os miúdos têm as suas particularidades e o seu contexto de vida, como de resto todos nós.
Foi, sim, sempre desafiante, imprevisível, emocionante. Nenhum dia foi igual a outro e, para além de se ensinar ou, em segunda linha, educar, também muito se aprende com os miúdos. O que têm de melhor é, sem dúvida, a sua espontaneidade. O que mais nos dificulta a tarefa é, muitas vezes, a sua impulsividade.
Fui muito mimada e também muito testada. Fui muito companheira e também muito “pouco porreira”. Fui muito compreensiva e também muito incisiva. Fui muito paciente e também muito impaciente. Tudo a seu tempo, atendendo às circunstâncias e procurando dar o meu melhor para fazer o melhor deles.
Devo ter acertado muitas vezes e falhado outras tantas porque não sou perfeita. Como toda a gente, tive dias maus e fui trabalhar (quase) sempre de sorriso no rosto. E quando estava mais triste, e eles percebiam mesmo sem querer porque sou transparente, procurava alento nos seus sorrisos que nunca me faltaram.
Ontem fechou-se um ciclo e creio que da melhor maneira e na melhor altura. Muito mais do que qualquer presente que tenha recebido, levo no coração todas as emoções e recordações que estes anos me proporcionaram e, no fim, as palavras de reconhecimento que tanto me emocionaram e que outro tanto compensaram.
Sinto-me muito grata por tudo o que com a equipa, com os pais e, acima de tudo, com as crianças, vivi, ganhei, aprendi e partilhei. Desejo a todos o melhor e, em particular aos mais pequenos que por mim passaram, sobretudo que deem sempre o melhor de si.
Eu estarei por aqui…


Sofia Cardoso
02 de julho de 2016

domingo, 12 de junho de 2016

Relaxar ou reclamar?

Não gosto mesmo nada de me demorar num sítio onde me está a ser prestado um mau serviço.
Muito para além do aborrecimento que já me causa o anormal tempo de espera ou a falta de qualidade/profissionalismo do atendimento, o que mexe mesmo comigo é o ambiente de crescente tensão que se gera em volta.
Na verdade, é, para mim, um imenso constrangimento assistir a vários clientes a refilar, entre dentes ou não. É como se tomasse as dores de quem flagrantemente está a falhar, talvez apenas porque não goste de sentir que alguém está numa posição vulnerável à minha frente.
É que eu nem sou muito exigente. Sou, até, bem pacífica e nestas questões muito paciente. Por isso, se já eu estou descontente, é porque a coisa está mesmo a correr mal e já há quem esteja verdadeiramente irritado.
Sentada de esplanada, rapidamente me apercebo de que a capacidade de resposta é bem demorada… Nem se entende porquê. Não está assim tanta gente, pelo que é fácil de concluir que se trata de pura falta de organização, simplesmente.
Não me salta a tampa porque não tenho pressa, nem feitio para isso. Aliás, sou muito mais o estilo de pessoa que prefere admirar e elogiar uma tarefa especialmente bem executada do que criticar por tudo e por nada.
Porém, quando vejo uma senhora mais despachada que não espera pelo empregado e vai logo buscar a lista, apressando-se a dizer o que deseja, passando descaradamente à minha frente, começo a não achar graça e lá tenho que intervir.
Desculpas solicitadas e aceites, pedido feito, limito-me, forçada, a ouvir os ecos que me chegam das mesas vizinhas.
Está tudo perfeitamente insatisfeito porque tudo está a demorar um século, porque os produtos não coincidem com o apresentado ou porque o prato não está servido de forma a justificar o preço cobrado…
À parte o mau humor de quem fácil e habitualmente de tudo reclama, mesmo que por vezes legitimamente, tenho que concordar que os empregados estavam, de facto, a desempenhar as suas funções pessimamente.   
Ainda assim, este não é o tipo de situação que me tire do sério. Há muitas outras coisas em que sou muito menos condescendente. Mas não deixa de ser aborrecido estar numa de relax e sentir o ambiente tão pesado que só apetece sair dali rapidamente.
Nestas circunstâncias, às vezes quase que me apetecia mais sair de fininho sem pagar do que reclamar mas, incapaz de o fazer (até ao dia…!) acabo sempre por me deixar ficar e, sem mais ondas, optar antes por, tão cedo, não regressar.


Sofia Cardoso
12 de junho de 2016

domingo, 5 de junho de 2016

Confidência(s)

Tenho tanto para dizer, tanto para agradecer, que as palavras não chegam…
A tua voz, sozinha, ilumina uma sala às escuras com o seu poder impressionante. Limpa, segura, afinada, possante… Depois junta-se-lhe a interpretação sentida, alegre, despretensiosa, cheia de vida… E os músicos e convidados que harmoniosamente te completam...
Tudo somado, resulta num espetáculo de uma riqueza única que entusiasma, contagia, comove…
De facto, o entusiasmado «És linda!» que vinha do meu lado da plateia é perfeitamente legítimo, ainda que não tenha partido de mim… A mim, apeteceu-me mais levantar-me como a prima Noélia e dançar convosco ao som de «Criatura da Noite». De mim, tiveste fortes palmas, tímidos assobios, notas mais ou menos afinadas, lágrimas discretas e alguns arrepios.
Palmas para o poder dessa tua imensa voz, instrumento que faz frente a uma orquestra inteira. Vénia para o genuíno momento de partilha dedicado a Ary dos Santos e sua «Desfolhada». Uau para o dedilhar hipnotizante de Custódio Castelo na guitarra portuguesa. Comoção para a magia das vozes do Coro do Conservatório de Olhão…
Foi, como prometido, mais uma grande noite, aplaudida de pé, demorada, merecida e reconhecidamente que deixou o meu coração muito contente.
Perante o teu imenso talento, acho fantástica a tua humildade e espero que tanto mais haja por dizer, para (nos) contar, para que nos continues a privilegiar até à eternidade…

 Foto: Teatro das Figuras

Sofia Cardoso
04 de junho de 2016

domingo, 1 de maio de 2016

Ensemble

Há momentos em que, definitivamente, o tempo devia ser obrigado a parar. Curiosamente são também esses que, deixando-me sem palavras, me obrigam ao mesmo tempo a procurá-las incansavelmente para eternizar as emoções que fizeram despertar.
Depois do “Solo”, intensamente descoberto e assim vivido e partilhado nos últimos nove meses, eis que nos vemos “Ensemble” novamente.
Fiz-me à “Estrada”, de volta à minha terra, ansiosa e propositadamente. Esqueci a magia inesperada vivida numa cadeira de plástico a céu aberto e viajei sonhando com um assento numa confortável plateia, procurando encontrar aquela ilustre sala completa e merecidamente cheia.
«É diferente», dizias no fim, comparando os dois trabalhos e querendo saber se gostara. É, sem dúvida. A orquestra é uma mais-valia que confere uma maior intensidade à força já de si arrebatadora das tuas teclas mas a emoção que provoca em mim é precisamente a mesma. Amei, como nunca duvidei.
“Lembro-me” exatamente de como senti o “Solo” e a vontade de te dar um valente “Abraço” no fim foi rigorosamente a mesma. Brilhante, maravilhoso, igualmente fascinante!
Por este andar, um dia, salta-me o coração pela boca…! A mesma boca que teve dificuldade em cantar os parabéns ao Manel sem deixar a voz embargar…
Durante o espetáculo, empresto-te o meu coração e o seu ritmo cardíaco deixa de me obedecer, seguindo o teu compasso. Já os meus olhos, fixos na tua imagem, por mais do que uma vez se enchem de lágrimas que dificilmente consigo conter. Foi assim da primeira vez. Acho que sempre vai ser.
Tenho a sensação mágica de que “Hiberno” num momento de profunda “Meditação” que me enche de esperança por dentro e me dá um novo “Alento”.
A Arte tem este superpoder em mim: o de me conferir um prazer inigualável, uma paz incomparável, uma sensação de “Liberdade” incontornável.
E é aqui que o tempo devia ser obrigado a parar. Teria ficado ali, horas e horas a ouvir-vos tocar, esquecida do mundo lá fora e da obrigação de regressar.
A vida não é fácil… Tenho-me sentido muitas vezes uma “Borboleta” frágil e aprisionada por circunstâncias que me impedem de voar e é precisamente a minha força interior que me tem ensinado a valorizar as mais pequenas coisas, o que também me tem permitido “Renascer” a cada novo “Amanhecer”… Porque “aBem” temos que saber aprender e, mesmo na “Dúvida”, continuar a acreditar que muita “Valsa” haverá ainda por dançar e o melhor estará por vir, pelo que vale realmente a pena na felicidade investir. E a minha faz-se de momentos assim. De sublime prazer.
Aplaudir, reconhecidamente, de pé ou escrever, simplesmente, talvez não chegue para agradecer. Ainda assim, mais uma vez, não consegui controlar o ímpeto de o fazer porque se nós te fazemos acreditar que vale a pena sonhar, acredita que tu fazes com que valha a pena o sonho viver…


Sofia Cardoso
30 de abril de 2016

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Eu, cidadã.

De miúda fiz-me mulher, com muito orgulho e sem precisar de quem me reconheça, por isso, um estatuto especial.
Em criança, sempre ajudei em casa, a par de brincadeiras, enquanto ia crescendo. Já universitária, fui babysitter e trabalhei numa loja, prescindindo de horas de diversão para juntar uns trocos para ir sustentando essa mesma diversão quando pudesse.
Acabado o curso, fiz as malas e mudei de distrito por amor, começando logo a estagiar. Fora de casa dos pais, passei a ter a minha e uma vida em comum para gerir.
Sempre tratei de tudo quanto são burocracias da vida adulta. As minhas e as de quem vivia comigo. Contas, prazos, obrigações, sempre foram uma das minhas muitas ocupações, mesmo partilhando tudo o resto.
Idealizei todo um casamento, desde a cerimónia à decoração da festa e de tudo tratei, ao pormenor, sem recurso a empresa XPTO de organização de eventos.
Agarrei sempre as poucas oportunidades de emprego que foram surgindo, mesmo fora da minha área de formação ou de preferência e nunca tive medo do trabalho. Fiz várias coisas em diferentes áreas e trabalhei longe de casa até decidir aumentar a família.
Grávida, desempreguei-me a pensar na bebé que aí vinha e num futuro profissional mais promissor. Enjoei durante nove longos meses, fiz retenção de líquidos a ponto de precisar de comprar calçado dois números acima do meu. Tive a minha primeira filha de parto normal, sem epidural e amamentei-a, sem pudores, exclusivamente durante 6 meses e ainda até aos 8. Fui apenas mãe e dona de casa, vivendo para ela e para as lides domésticas durante 14 meses, porque foi só com 14 meses que começou a andar e essa era condição de entrada imposta pelo infantário para a sala de 1 ano. Aí, voltei à luta por um novo emprego.
Entretanto, fui decorando a casa inteira, pintei paredes, montei e arrastei móveis, remodelei e reciclei.
De volta ao ativo, continuei a não saber o que era trabalhar perto de casa. Fazia 40 a 50 km por dia, numa estrada acidentada e palco de acidentes. Entrava às 09h e saía às 18h. Muitas vezes saía de casa a correr para levar a miúda à escola e saía a correr do emprego para fazer o percurso inverso, para que não fosse das últimas a sair e pudesse ainda desfrutar algum tempo de qualidade com ela.
Engravidei da minha segunda filha. Trabalhei até ao termo da gravidez, que acabou numa cesariana programada, que fiz contrariada, mas sem outro remédio porque ela estava sentada. Necessariamente, desta vez levei epidural mas a seguir sofri tudo igual porque tive uma hemorragia. Amamentei-a tanto quanto o seu crescimento permitiu. Dois meses apenas, muito menos do que a primeira, infelizmente.
Um ano depois, quis o destino (e a patroa!) que o meu posto de trabalho fosse extinto, porque a dita tinha outros planos para a vida profissional dela.
Sem alternativa, fiquei no desemprego um ano e aceitei a primeira oportunidade que surgiu. Cá estou, até hoje.
Muita coisa aconteceu entretanto e nunca baixei os braços, não desisti perante nenhuma adversidade, perda ou virei costas a qualquer responsabilidade.
Tudo mudou… Há um ano, depois de treze anos de um pedido de casamento, vi-me obrigada a aceitar um pedido de divórcio porque a vida e as circunstâncias não me deram outra hipótese. 
Por isso cá estou, sozinha com duas filhas, numa terra que não é a minha, quase sem família por aqui e com poucos mas muito bons amigos que, por mais que de uma ou outra forma me ajudem, não vivem a minha vida por mim.
O despertador toca lá em casa às 06h30m. Uma hora depois, estamos as três a sair para percorrer 30km da mesma estrada acidentada de outrora mas no sentido contrário. O meu horário tem início às 09h30m e no entanto, às 09h lá estou eu, mesmo nos dias em que só entro às 10h porque a mais velha começa as aulas logo às 08h30m e tive que as levar para perto de mim.
Findo o dia de trabalho, os mesmos km de volta. Entre atividades das miúdas, supermercado, jantar, loiça, roupas, ajudas com trabalhos de casa e afins, passam-se as poucas horas que me restam acordada e assim também os fins-de-semana que ficam reservados para tratar da roupa e fazer limpezas e logo se vê o tempo que sobra e para quê.
Desde que sou mãe, sempre cumpri religiosamente prazos de vacinas e consultas médicas, onde sempre foram comigo, perdendo horas de sono junto delas quando estão doentes. Sempre acompanhei os estudos, sem falhar reuniões, festas e outras participações. Sempre levei as minhas filhas às festinhas de anos dos amigos, ao cinema, ao parque infantil. Sempre contei histórias, fiz jogos e puzzles com elas, entre outras brincadeiras. Sempre tratei das listas e das compras de presentes de Natal, aniversários e afins. Bem assim, as listas de supermercado. Carreguei e carrego muitos sacos de compras, sozinha.
Acima de tudo e muito mais importante, sempre lhes dei muita atenção, mimo e educação, em qualquer fase ou circunstância, fazendo o melhor que sei e consigo, orientada pelos valores da minha formação.
Troquei o ginásio frequentado por dois curtos anos da minha trintona existência pela ginástica orçamental que faço para gerir impostos, seguros, despesas com casa, pessoais e correntes, na perspetiva do que sobra para a rúbrica “extras” e ainda, eventualmente poupar qualquer coisa.
Não me perco em centros comerciais e raramente vou ao cabeleireiro. Aliás, estou em modo “californiana com toques grisalhos” porque não faço nuances quase há um ano.
Não tenho empregada doméstica, nem babysitter ou avós disponíveis que me possibilitem ir só ali fazer qualquer coisa que precise, me dê jeito ou mero prazer.
De resto, contam-se pelos dedos as oportunidades que tenho para estar com a minha família ao longo do ano e perco-me na contagem de ocasiões importantes que tenho perdido das suas vidas ao longo do tempo…
Sou mãe a 100%, trabalhadora em horário completo, dona de casa por turnos e mulher no tempo que resta.
Como eu ou em situações muito mais complexas ou até incomparáveis, tantas outras mães que admiro, mesmo que não as conheça…
Posto isto, será que alguma de nós tem tempo ou sequer se interessa por tecer considerações teóricas e, permitam-me, patéticas, sobre o nome escolhido para o nosso documento de identificação? Acham mesmo que me adianta a vida ou me faz sentir mais mulher a alteração de um nome cuja designação é perfeitamente legítima à luz da Língua Portuguesa, que sempre usou o masculino em inúmeras circunstâncias com sentido genérico? Depois do cartão virá o quê, a “Loja de Cidadania” porque as senhoras podem achar que não são bem-vindas naquele espaço? Tenham paciência! Não têm nada mais importante para discutir? Ó senhores, querem mesmo perder tempo? Então, em sintonia com o país que temos hoje, chamem-lhe mas é “Cartão de Super-Herói” ou de “Super-Heroína” se o vosso sexismo fizer muita questão!








Sofia Cardoso
21 de abril de 2016