sábado, 31 de outubro de 2015

Miss you...

Imagino que estejas triste comigo. Magoado, desiludido, talvez até zangado…
Estou ausente a maior parte do tempo e, quando estou presente, de ti, bem distante.
Não te dou a atenção que mereces, apesar de te adorar e de tanto precisar de estar contigo. E preciso, acredita.
Não deves acreditar, eu sei. É mais fácil pensares que me esqueci que existes.
Não me esqueci. Simplesmente não tenho mesmo tido tempo, sequer para mim.
Sei-te aí, tão carente de mim como eu de ti e passo à tua frente, ocasionalmente, quase ignorando o quanto chamas por mim. É mais fácil, ou menos penoso, digamos assim.
A verdade é que a semana voa e mal nos vemos. Chegado o fim-de-semana, a saudade de repousar no teu colo, de ver um filme aconchegada, de adormecer nos teus braços, não é mais forte do que tudo o que me impede de o fazer.
Falta-me tempo, sobram-me tarefas e, no entretanto, ambos a sofrer. Tu, calado, impávido e sereno. Eu, cansada, imparável e acelerada. 
É assim, por enquanto. Talvez encontremos uma solução justa para ambos ou chegue o dia em que eu volte a ter tempo para simplesmente me atirar sobre ti, sem pensar ou hora de me retirar.
Até lá, quero apenas que saibas que sinto verdadeiramente a tua falta, meu querido sofá.

Sofia Cardoso
31 de outubro de 2015 

domingo, 25 de outubro de 2015

Há 3 anos...

Há três anos, perdi o primeiro homem da minha vida. Aquele que mais me mimava, aquele que conscientemente nunca me abandonaria, aquele que me entregou, orgulhoso, feliz e confiante, a quem o faria…
Existem muitas formas inesperadas, injustas, penosas de perder alguém de forma definitiva. Já conheci duas delas, ambas diferentemente repentinas mas igualmente injustas. A primeira, por morte. A segunda, por desistência.
Acredito, embora doa ainda mais, que quis Deus com a primeira evitar um desgosto ainda maior quando chegasse a segunda.
Os últimos três anos têm sido um teste constante às minhas capacidades de resistência, de luta, de resiliência. E esta última semana tem sido vivida nos últimos dois anos com a mesma sensação de espera solitária e impotentemente sufocada da mesma semana vivida há três.
Não sei se vai ser assim para sempre mas ainda não consigo desligar das memórias desses oito dias de bomba relógio prestes a explodir, sem sequer ter temporizador à vista para saber quanto tempo mais para o ver partir.  
O nada poder fazer para evitar, o nada poder dizer para minimizar, o nada poder ouvir… Simplesmente não poder usufruir do direito de me despedir… Porque a medicina sabe como evitar o sofrimento físico mas não tem como evitar a dor psicológica destes momentos. Porque existe um médico perentório na hora de nos mandar simplesmente aguardar à cabeceira mas não existe quem nos dê colo e nos ensine a com isto lidar. Porque estamos lá todos, os familiares diretos (quem viria a desistir nem sequer esteve…) e os nossos amigos do peito mas cada um sozinho com a sua própria dor porque temos que parecer fortes uns pelos outros e a verdade é que não há como partilhar esta sensação de incapacidade perante a inevitabilidade de uma morte anunciada mas sem hora marcada.
Quando consegui estar sozinha no quarto, falei-lhe sem ouvir resposta, segurei na sua mão sem sentir que me sentia, sentei-me de olhar perdido sobre o Tejo e pensei na minha própria família do outro lado da margem, lá tão longe e senti-me tão sozinha… Inacreditavelmente, muito mais sozinha do que me sinto hoje…
Estas muitas recordações estão todas presentes, muito mais em sentimentos do que em imagens. Uma semana que culminou neste dia 25, do qual, a partir do telefonema matinal que pôs fim à angústia terminal, me lembro muito pouco. Sei que chovia…
Cá dentro, choverá para sempre. Não há como compensar este tipo de perda. A “ficha só cai” uns meses depois e daí em diante vamos aprendendo, cada um à sua maneira, a lidar com a ausência e a saudade. Choro, sem ninguém ver, muitas vezes; admiro, sem os conhecer, os casais de velhinhos por quem passo; invejo, sem querer, quem tem os pais ao seu lado…
…Mas sei que há provas na vida por que passamos sem entender que terão a sua qualquer razão de ser e é melhor aceitar e seguir do que perder tempo a discutir.
A melhor homenagem que lhe devo será sempre ser e viver o melhor que conseguir.


Sofia Cardoso
25 de outubro de 2015

sábado, 24 de outubro de 2015

100!!!

Assim, de repente,
É este, o número 100.
Um marco num caminho
Sempre para a frente
Só porque me faz bem
Ir sonhando, devagarinho.

Sem festa para celebrar,
Como a homónima lição,
Ainda assim vou festejar
Só convosco, de coração.

Não coleciono escritos.
Letras que saem do peito
São aquilo que me move.
Tenho os meus favoritos,
E, por eles, tarde me deito
Se a inspiração não demove.

O objetivo é um, apenas:
Alcançar outros corações
Que se revejam nas cenas
De que resultam emoções.

Estás aí e até gostas?
Não temas revelar
O que te faz sentir.
Por que não comentas,
Se te faz pensar?
Far-me-á sorrir…








Sofia Cardoso
24 de outubro de 2015 

domingo, 11 de outubro de 2015

«Amigos Improváveis»

Há quem adore animais. Também gosto muito deles e tantos há que nos ensinam muito mais que muita gente mas, verdadeiramente, adoro pessoas.
Os animais seguem um padrão de comportamento mais ou menos adequado à espécie a que pertencem, o que os distingue de todos nós, que somos especiais precisamente por sermos tão diferentes uns dos outros. AÍ reside a nossa riqueza.
Ontem vi um filme, baseado numa história verídica, que me encantou. Também adoro histórias verídicas porque nos provam tudo o que é possível ser, existir, aprender, conseguir… E nos dão verdadeiras lições de vida…
O enredo gira em torno de um emprego que nem era para o ser e de como uma simples relação completamente improvável entre duas pessoas tão distintas transforma duas vidas para sempre.
Podemos ser muito do que e de quem nos rodeia, é um facto. No entanto, podemos ser muito mais, se quisermos. Se formos nós próprios, em qualquer circunstância, perante qualquer pessoa, sem preconceitos, máscaras ou subterfúgios.
A beleza desta história encontra-se no acaso de ser justamente a diferença que gera a união dos dois personagens que, sendo de mundos antagónicos, fazem do que podia ser um choque cultural constrangedor, um abraço intelectual comovente, de forma hilariante.
Circunstâncias adversas da vida, podem ser respeitosa e inteligentemente minimizadas ao ponto de nos conseguirmos rir delas, sendo sensivelmente sinceros mas pragmáticos ao lidar com elas.
«Amigos Improváveis» deixa-nos uma tremenda lição de como não devemos julgar ninguém pela aparência, de como podemos ir mais longe se nos disponibilizarmos a isso, de como o preconceito é uma barreira transponível, de que rir é e sempre será o melhor remédio, de que a felicidade pode vir de onde e através de quem menos esperamos, de que somos todos bem maiores e melhores do que às vezes supomos…


Sofia Cardoso
11 de outubro de 2015 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mexe-te!

Queres?
Não esperes.
Se esperar for crucial,
Não desesperes.
Foca-te no essencial.

Temes?
Não te negues.
Se não tentares,
Não consegues.
Faz o que puderes.

Sonhas?
Não durmas.
Se não acordares,
Não concretizas.
Hora de te levantares.

Procuras?
Não desistas.
Se não te mexeres,
Não encontras.
Chega de te esconderes.

Acreditas?
Não desanimes.
Se não lutares,
Não chegas lá.
Mexe-te, vá!








Sofia Cardoso
08 de outubro de 2015 

domingo, 4 de outubro de 2015

Pormenores

Quando sujeitos aos maiores e inesperados embates da vida, temos apenas duas extremas opções: ou nos entregamos ou resistimos com as armas que temos. E quando não temos muito, aprendemos e habituamo-nos a defender-nos com o que estiver mais à mão. E mais à mão, pode estar qualquer coisa. Há tanta frase feita a propósito e tanta gente a saber pregar tão bem que a felicidade está nas pequenas coisas… Mas quantos, verdadeiramente, darão por elas no dia-a-dia e as gozarão?
É muito fácil identificá-las, relativamente acessível escrever sobre elas e dificílimo ser feliz através delas.
Tenho tentado afincadamente, desde logo porque não vivo de falsas frases feitas atiradas ao ar. Prefiro fazer delas verdadeiras formas de viver com os pés na terra.
Para mim, as tais “pequenas coisas” nem sequer são coisas (palavra materialista que vicia logo tudo…) São pormenores (palavra tão simples e tão rica em significado…) Feitos de gestos, de pessoas, de momentos… Um sorriso, um elogio, uma mensagem, um carinho, uma refeição. Uma paisagem, uma conversa, uma companhia, uma recordação. Um trabalho, uma música, um passeio, uma emoção… Entre dezenas de outros despretensiosos apontamentos de vida, estes têm sido a minha arma secreta, a um ponto que nem eu julgava possível.
O que tenho conseguido? Viver melhor. Simples. O que tenho aprendido? Que é mesmo verdade que quanto menos se tem menos se espera ou exige. Mais simples ainda.
Não é só uma questão de hábito. É, sobretudo, uma forma inteligente de defesa que acaba por funcionar como combate à adversidade. Resulta! E se não me levar onde quero chegar, pelo menos obriga-me a, pelo caminho, tudo melhor apreciar.


Sofia Cardoso
04 de outubro de 2015