sábado, 21 de fevereiro de 2015

Incapacidade

Poderia enveredar pelo doloroso caminho já tantas vezes percorrido e focar-me na perda… Também poderia deter-me num medo mais comum e muito menos inquietante e dissecar os sonhos que aqui e ali me fazem gelar na presença de um ser rastejante, escamoso, comprido e venenoso a perseguir-me. Mas não. Há um medo maior, porquanto mais lato...
Senhora de mim como ninguém, não posso deixar de considerar a incapacidade como o meu maior receio.
Temo a incapacidade física causada por doença ou acidente. Aquela que atira um corpo enérgico, que corre atrás da vida, para uma cama de um qualquer quarto lúgubre ou para uma cadeira que não mata mas limita. Sim, temo. No entanto, mesmo que este cenário realidade se tornasse, teria sempre intata a minha garra interior que me poderia levar onde quisesse, nem que tivesse apenas a imaginação como meio de transporte.
Daí que o medo suba um degrau na escala rumo ao pânico e passe a referir-se à incapacidade de discernir, de decidir, de agir. O bloqueio da depressão, do buraco sem fundo em que algumas pessoas caem e o qual negarei em mim até à morte, ainda que o tema. Temo-o, sim, porque o reconheço, o respeito e, inclusivamente, tudo faço para ajudar quem com ele se debate.
E depois, de volta à maternidade, incontornável desde que o cordão umbilical é cortado, unindo assim dois seres até à eternidade, surge o medo último, o do topo da escala, roçando o terror… A incapacidade de educar. De semear os grãos de princípios básicos que florescerão em pétalas de valores vários, coloridos, perfumados, atrativos a outros seres que neles reconhecerão vida pura onde pousar.
Parece que ninguém teme fazer filhos… Sob determinado ponto de vista, é uma pena, pois considero que este receio seria extremamente positivo, se se instalasse. Responsabilizaria mais quem assume este compromisso perpétuo que deveria elevar-se a missão na vida de todos quantos se arrogam esse direito.
Feitas as contas aos degraus, o que importa mesmo é estar em forma para correr deles, escada abaixo, sem olhar para trás.
Há que parecer forte e ser implacável no combate à vulnerabilidade. Confiar cegamente no que está cá dentro e fazê-lo de escudo a tudo o que adversamente vier de fora.
Ser guerreiro, mesmo em tempo de paz!






     

Sofia Cardoso 
21 de fevereiro de 2015

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